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10/08/2018

S. Ferenczi... por M. Balint e os tradutores franceses de suas obras!


Quando do prefácio à tradução francesa das obras escolhidas de Ferenczi, Michael Balint, talvez seu maior seguidor, julgou necessária uma breve introdução sobre o homem Ferenczi. Neste momento, entretanto, não deixou de se lamentar que, só após mais de 30 anos de sua morte é que seus trabalhos começavam a ser publicados na França.

Para Balint, era inegável que Ferenczi fora um dos colaboradores mais íntimos de Freud, a ponto deste afirmar que, de alguma forma, todos foram seus “alunos”. Entretanto, nada disto evitaria uma crescente divergência entre ambos, até culminar em uma aberta desavença, em 1932, pouco antes da morte de Ferenczi.o

Mas, segundo Balint, quem foi Ferenczi?

Ele vinha de uma família de dez irmãos e desenvolveu, desde cedo, uma forte idealização paterna, tendo perdido-o aos 17 anos. Com a mãe, vivenciou uma aguda ambivalência, e passou praticamente toda a vida experimentando uma forte necessidade de sentir-se amado, sempre precisando de algo a mais.

Ferenczi estudara em Viena, tornando-se neuropsiquiatra. Mas, neste período não se encontrou com Freud e sua obra. Só depois veio ter acesso a algumas leituras sobre as histerias e sobre os sonhos, até que, em 1908, juntamente com Jung, solicitou uma entrevista ao fundador da psicanálise. Ferenczi estava com 34 anos e às vésperas de abandonar a clínica geral para dedicar-se integralmente à Psicanálise, o que ocorreu em 1910.

O encontro em 1908 foi muito promissor a ponto de Freud tê-lo convidado, de imediato, a apresentar uma comunicação no primeiro congresso de Psicanálise que aconteceria poucos meses depois. O texto de Ferenczi, na ocasião, foi “Psicanálise e Pedagogia”, um tema absolutamente inovador à época. Nascia uma forte amizade entre ambos.

No início, seus artigos psicanalíticos refletem questões fundamentalmente teóricas para, mais tarde, ele vir a ser tomado pela preocupação com os assuntos da “técnica”, tema que ocupou seu tempo até o fim da vida e que alicerçou avanços significativos para a Psicanálise

Balint ainda nos destaca que Ferenczi era “audacioso” como pesquisador, e muitos de seus artigos causavam “controvérsias”, sendo considerados, por muitos, “inoportunos” para a época acabando, por isso, sendo “ignorados” ou “esquecidos” pela maioria dos psicanalistas.

Certamente, este comentário de Balint nos ajuda a entender o atraso com que a obra de Ferenczi chega não só ao público em geral mas, até mesmo, aos psicanalistas, e nos aponta a clara necessidade de que sua obra continue sendo descoberta.

Os tradutores de sua obra para o francês nos ajudam a entender melhor este fato. Para eles, a obra de Ferenczi desperta, simultaneamente, sedução e repulsa. Algo semelhante, portanto, ao que a própria psicanálise provoca no público, uma dupla reação de fascínio e medo. O problema é que, com a obra de Ferenczi, são os próprios psicanalistas que agem assim.

Eles nos dizem que para muitos que conheceram Ferenczi de perto, ele era um “fragmento da vida em estado puro”, que não lidava bem com restrições e agia em todas as direções. Ou seja, havia um “extravasamento vital”, com “um perfume de desespero e morte”. Ora, dizem os tradutores, o que pode haver de mais desesperado do que a recusa absoluta em renunciar à esperança? i Certamente, isto nos ajuda a entender um pouco das reações inconscientes à Ferenczi.

Em uma última observação, os tradutores dizem que Ferenczi era muito independente no uso de sua terminologia para as diversas noções psicanalíticas e isso traz sempre um risco de confusão no leitor. Talvez, acredito, fruto de uma época em que os fenômenos da psicanálise ainda estavam encontrando melhores contornos e definições e, fruto também do próprio extravasamento vital de Ferenczi, ou seja, de sua busca incessante por ser “ele mesmo”.

Henrique Silva


 i Ferenczi, Sandor, 1873-1933. Obras Completas, Psicanálise I. Tradução Álvaro Cabral. – 2ª Ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011, p. XII © 1991.