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12/08/2018

Em defesa de todo sofrimento! (travessia do deserto)


O Caderno Alias, de O Estado de S. Paulo, do dia 5 de agosto de 2018 traz uma resenha da jornalista e especialista em semiótica psicanalítica (PUC-SP) Amanda Mont’Alvão Veloso sobre o livro Patologias do Social: Arqueologias do Sofrimento Psíquico, organizado por Vladimir Safatle, Nelson da Silva Junior e Christian Dunker. 

Para Amanda, as mensagens trazidas no livro são muito oportunas em meio ao que chama de "contexto de epidemias de suicídio, depressão, ansiedade e anorexia".

Qual o principal argumento que encontra nos capítulos do livro? O necessário reconhecimento do sofrimento para além de sua patologização e medicalização!

O tema me motivou a tecer comentários.

Vivemos um momento em que a possibilidade de "sofrer" está destituída de qualquer valor, o que contrasta flagrantemente com o enorme aumento de formas de sofrimento tão intensas que beira os processos dissociativos, delirantes e alucinatórios. Talvez exista sim algum nível de relação entre os dois fenômenos, separados apenas por um mecanismo de defesa semelhante ao da "negação". 

Então, me parece que negamos o sofrimento apenas para vivê-lo em suas formas mais intensas!

De um lado um furor classificatório que, sustentado, em observações sintomatológicas apressadas produz diagnósticos que são verdadeiras "caixinhas" onde não cabem a "subjetividade", aquilo que é pessoal. De outro lado, uma negação do sofrimento àqueles que recusam tais "caixinhas".

A ordem é "não sofra", pois com isso você pode não ter um "lugar". Se quiser sofrer encontre a sua "caixinha", sua identidade patológica. Ora, como nos lembra Amanda, uma das mais evidentes expressões do humano é justamente o sofrimento. Somos inerentemente marcados por falhas existenciais e perdas ao longo de nosso amadurecimento. o problema é que estamos impedidos de sofrer nossas falhas e perdas se não estivermos enquadrados em algum diagnóstico psiquiátrico. E isso fica claro na fala de muitos pacientes no consultório quando buscam uma identidade ou se aliviam quando a encontram: "sou bipolar”, “sou hiperativo” ou “sou ansiosa”. Ora, nada mais são que lugares definidos como definitivos. Lugares e caixinhas que me definem, onde me encontro e a partir de onde me defino.

Mas, o que estas caixinhas têm a dizer sobre a subjetividade? Sobre a história do indivíduo? Sobre seus modos de viver e se relacionar? Praticamente nenhuma indagação. Somente constatações. E isso é desesperador para certos pacientes que não querem tais "identidades" e precisam encontrar-se ainda saudáveis em meio ao sofrimento.

Não! Não me preocupo em atacar o medicamento, mas sim a medicalização exasperada, muito meno o diagnóstico, mas a diagnosticalização apressada. Nem mesmo me preocupo em criticar as classificações psiquiátricas, mas sim este furor classificatório que se afasta a cada dia da subjetividade. É o risco de falência da empatia com o paciente, reduzido a um conjunto de sintomas, a questões fisiológicas. Impossível de ser enxergado em seus recursos saudáveis e em sua capacidade de amadurecer.

A vida contemporânea é um convite a uma vida falsa, dissociada, com poucos contatos com a subjetividade. São inúmeras, portanto, as condições de geração de patologias do social, das relações com o social. Na melhor das hipóteses, estamos cada vez mais adentrando à realidade externa, ao mundo objetivo, nem tanto através de nosso amadurecimento, mas de processos de Introjeção onde engolimos o mundo, ou seja, introjetamos tudo aquilo que nos dizem ser necessário a nós mesmos. Viramos uma grande boca, gulosa, insaciável. Mas, vomitamos na mesma velocidade. Bem, o enorme crescimento dos distúrbios alimentares deve nos ensinar algo sobre isso também.

Precisamos sim, então, reconhecer o sofrimento como algo inerente à natureza humana e não como algo a ser "evitado" a todo custo. Essa operação de negação e recalcamento pode ser mais muito mais dolorosa que a própria jornada que o sofrimento pede para realizarmos. A velha travessia do deserto onde encontramos a nós mesmos, na nossa capacidade de estar só e de sobreviver.

Talvez o exemplo mais marcante desta negação em atravessar-se o deserto seja a necessidade demonstrada por muitos em suspender ou evitar qualquer tipo de enlutamento. Há uma recusa, e estimulada por discursos "especialistas" e "não especialistas", da mídia, dos amigos, enfim. E, neste aspecto, retomo uma intenção do livro citado acima que é, justamente, a de se lutar por um sistema de valores baseado na subjetividade. Ou seja, não precisamos tanto de "generalizações" e nem de respostas prontas. Pecisamos tomar gosto pela aventura de nos conhecermos para não termos que temer aquilo que é nosso, próprio de nossa natureza, fonte de nossa força psíquica... o sofrimento!

Assim, não podemos perder a perspectiva de que a vivência, em algum grau, do sofrimento talvez seja a única possibilidade de um reencontro com nossa "centelha vital", fonte de nossa vontade de continuar existindo e de saúde.

Abraços.

Íntegra do texto jornalístico disponível aqui!

Henrique Silva