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31/08/2018

Cordão, uma técnica de comunicação (Winnicott, 1960)


Cordão, uma técnica de comunicação (Winnicott, 1960)

Winnicott, D. W. Cordão: uma técnica de comunicação (1960). O Ambiente e os Processos de Maturação: Estudos Sobre a Teoria do Desenvolvimento Emocional. Tradução de Irineo Constantino S. Ortiz. – Porto Alegre, Artmed, 1983, cap. 13, p. 140-144 © 1979 The Maturacional Processo and the Facilitating Environment. Este artigo foi publicado pela primeira vez no Journal of Child Psychology and Psychiatry, I, p. 49-52.

Neste artigo de 1960 Winnicott nos conta de um garoto de 7 anos que foi trazido pelos pais ao hospital, em março de 1955, encaminhado pelo médico da família com sintomas de distúrbio de caráter. Ele nos relata o enfrentamento das sérias dificuldades do garoto com a separação materna, seus sintomas antissociais e um possível desenvolvimento de perversão, com o uso de rabiscos e da psicoterapia com auxílio dos pais (a técnica do lar como "hospital"). 

De início, Winnicott entrevista os pais acerca do desenvolvimento do garoto e pode-se notar a sua preocupação não simplesmente com algumas perguntas, mas com um relato minucioso dos pais acerca das principais etapas e dos acontecimentos da vida do filho. Isto, com o intuito de perceber seus amadurecimentos, as condições intrusivas que possa ter enfrentado e as próprias condições de saúde e possibilidade de colaboração dos pais.

No relato, a mãe surge como depressiva, chegando a internar-se em certo momento. Mas, de qualquer forma, ela parece ter conseguido cuidar bem do garoto até o nascimento da filha mais nova, quando ele tinha por volta de 3 anos. Este era o início de algumas "separações" experimentadas pelo garoto em relação à sua mãe. Alguns meses depois a mãe se interna para se submeter a uma operação. E, quando ele tinha por volta de 4 anos e 9 meses, uma nova internação da mãe, agora por 2 meses, em um hospital psiquiátrico. Ou seja, novas separações. O garoto, por esta época, já vinha se revelando “difícil”, com bruscas mudanças de humor e com muita raiva de uma tia que cuidava dele enquanto a mãe estava ausente. A revelação de uma possível recusa de qualquer substituto materno. Ou seja, já experimentava os dissabores de sua forte ansiedade, derivada da insegurança e do temor pelo desaparecimento da mãe.

Após a conversa inicial com os pais veio a entrevista com o garoto, que logo se ocupou do jogo de rabiscos  trazendo um resultado curioso: muito dos rabiscos que fazia traziam algo semelhante a um “cordão”, na forma de laço, chicote, etc. Quanto aos rabiscos, Winnicott nos diz que neste jogo faço certo tipo de desenho linear impulsivo e convido a criança, que estou entrevistando, a transformá-lo em alguma coisa e então ela faz um rabisco para eu transformar em algo por minha vez. (p. 141).

A seguir, em uma nova entrevista com os pais, Winnicott os questiona acerca desse interesse do garoto por cordões. Os pais, que não haviam tocado no assunto por considerarem-no insignificante, se entusiasmaram e contaram que o menino se mostrava sempre obcecado por tudo que se relacionasse a cordões e os usava para “ligar” os diversos objetos da casa, chegando até a atar um cordão no pescoço da irmã mais nova. Para Winnicott o cordão parecia surgir como uma estratégia para manter a união com a mãe.

Bem, como não havia possibilidade de um acompanhamento frequente, já que os pais moravam no ambiente rural, Winnicott tomou as medidas necessárias para o momento e nos conta sobre como comunicou aos pais.

Expliquei à mãe que este menino estava enfrentando um receio de separação, tentando negar a separação pelo emprego do cordão, como se poderia negar a separação de um amigo pelo uso do telefone. Ela ficou cética, mas eu lhe disse que se visse algum sentido no que lhe dizia, gostaria que ventilasse o assunto com o menino em alguma ocasião apropriada, fazendo-o saber o que eu tinha dito e então desenvolvendo o tema da separação de acordo com a resposta do menino (p. 141).

O que se tem aqui é uma lição de comunicação aos pais e uma tentativa de trazê-los para perto, colaborando no tratamento do filho, respeitando o ritmo deste e facilitando o aparecimento de alguma espontaneidade, como no jogo de rabiscos.

O próximo encontro foi cerca de seis meses após, e Winnicott perguntou sobre o que aconteceu logo após a última conversa. Ele queria saber dos efeitos de seu encontro com o garoto. E a mãe lhe disse que havia pensado que tudo, na verdade, era uma tolice até que, certa noite, falou sobre o tema com o garoto e se surpreendeu por ele ter ficado ansioso e continuado a falar sobre a relação de ambos. Então, relembraram muitas das separações que viveram e aí, finalmente, ela pôde confirmar a importância que a ideia de "separação" tinha para o filho.

A partir desta conversa entre mãe e filho a brincadeira com os cordões cessou. Vieram outras conversas e ela pôde continuar falando, inclusive da separação mais dramática, quando estava deprimida e perdeu o contato com o filho. Mãe e filho pareciam restabelecer uma comunicação que, para ambos, era dolorosa, mas significativa e necessária para fazer a ansiedade circular e encontrar possibilidades de se dissipar.

Um ano após as conversas iniciais da mãe com o filho ele retorna à "brincadeira" com os cordões, justamente quando ela começa a se aprontar para ir ao hospital para nova cirurgia. Fica muito claro para a família o quanto o garoto sofre com a insegurança gerada pela ideia de ser abandonado. Nesse momento, ela diz ao filho que compreende que ele esteja preocupado por ela partir e trata de acalmá-lo dizendo que voltará logo e que a operação que fará não é tão séria como ele pode estar pensando. Ou seja, ela possibilita a ele enfrentar suas fantasias com dados da realidade trazidos por ela mesmo, mantendo a comunicação entre ambos em bom nível. Com isso, a  brincadeira com o cordão logo cessou novamente.

Quatro anos depois, o pai do garoto relata uma nova “recaída”, agora associada a uma depressão da mãe. Foi nesse mesmo período de crise que o garoto tentou chamar a atenção dos pais com atitudes mais fortes. Por exemplo, deixou que o pai o visse pendurado numa corda, de cabeça para baixo, como se estivesse “morto”. O pai não deu muita “atenção”, e o garoto logo se entediou e parou a brincadeira. Entretanto, no dia seguinte, ele fez o mesmo numa árvore de onde podia ser visto pela cozinha, e a mãe ficou muito assustada com a cena. Foi uma fase que durou dois meses e cessou quando a mãe melhorou, o pai superou o desemprego e a familia pôde viajar de férias.

Enfim, de acordo com Winnicott, o garoto avançara em seu amadurecimento, mesmo que depois, por volta dos seus onze anos, apresentasse alguns sintomas da desconfiança na relação com a mãe, como ao segurar as fezes e ao fazer a função materna para uma "família" de ursos de pelúcia. Tudo isto, segundo Winnicott, poderia levá-lo a assumir uma homossexualidade devido à forte identificação materna, ou mesmo à uma perversão no uso do cordão, uma objeto cujo papel era controlar sua ansiedade. Mas, claro que nada disse tem um caráter determinista.

Abaixo, reproduzo integralmente os comentários finais de Winnicott sobre o caso:

1 – O cordão pode ser visto como uma extensão de todas as outras técnicas de comunicação. Cordão une do mesmo modo que auxilia no embrulhar de objetos e na manutenção de material não-integrado. Nesse sentido o cordão tem um significado simbólico para todos; um exagero do emprego do cordão pode facilmente fazer parte do início do sentimento de insegurança e da ideia de falta de comunicação. Nesse caso particular é possível detectar anormalidade emergindo no emprego do cordão pelo menino e é importante descobrir que a mudança poderia levar a tornar perverso o seu emprego.

Parece possível chegar a tal dedução se se considera o fato de que a função do cordão está mudando de união para negação da separação. Como negação de separação o cordão se torna algo por si mesmo, algo que tem propriedades perigosas e que tem de ser dominado. Neste caso a mãe parece ter sido capaz de lidar com o emprego do cordão pelo garoto antes que fosse demasiado tarde, quando seu emprego ainda traduzia esperança. Quando a esperança está ausente e o cordão representa a negação de separação, então um estado de coisas muito mais complexo se origina – que se torna difícil de curar, por causa dos ganhos secundários que se originam da habilidade que se desenvolve quando um objeto tem de ser manipulado para ser dominado.

Por isso este caso apresenta um interesse especial à medida que nos torna possível a observação do desenvolvimento de uma perversão. (p. 143).

Neste ponto, Winnicott parece nos falar do uso de um objeto que, inicialmente, pode ser transicional, com a função de aliviar alguma insegurança ou ansiedade de separação, mas cujo uso se perpetua tornando-se compulsivo e impossível de ser descartado, mantendo-se como um recurso que pode ser "usado" e "controlado" nos momentos de insegurança - este poderia ser, em linhas muito gerais, o desenvolvimento de um objeto transicional para uma prática perversa.

Continuando os comentários finais de Winnicott.

 2 – É possível ver também deste material o uso que pode se fazer dos pais. Quando os pais podem ser utilizados, estes trabalham com grande economia, especialmente se se tem em mente que nunca haverá terapeutas suficientes para tratar todos os que necessitam de tratamento. Lá estava uma boa família que estava atravessando tempos difíceis por causa do desemprego do pai; que foi capaz de assumir toda a responsabilidade de criar uma criança deficiente mental [sua irmã mais velha, à época com dez anos de idade] a  despeito de seus tremendo inconvenientes, sociais e intrafamiliares; e que sobreviveu às terríveis fases da doença depressiva da mãe, incluindo uma de hospitalização. Tem de haver muita força de vontade nesta família e foi na base desta presunção que se tomou a decisão de convidar os pais a assumir a terapia de seu próprio filho. Ao fazê-lo aprenderam muito sobre si mesmos mas precisaram ser informados sobre o que estavam fazendo. Precisavam também ver seu êxito ser apreciado e que todo o processo fosse verbalizado. O fato de terem visto seu filho atravessando uma doença deve lhes ter dado confiança no que concerne a sua habilidade de solucionar outras dificuldades que surjam eventualmente (p. 143).

Aqui, o destaque de Winnicott é no sentido do lar servir como "hospital" e os pais como "terapeutas". Fica muito clara sua visão do desenvolvimento infantil como relacional, ou seja, em interdependência com o ambiente. Estando esta interdependência, portanto, na etiologia de diversos adoecimentos psíquicos, e estando aí também grandes possibilidades de sua superação. Além disso, neste caso, Winnicott nos mostra que nem sempre a psicanálise é possível ou necessária, mas que isso não implica que não se possa fazer outra coisa, como os atendimentos largamente espassados e com a ajuda direta dos pais, e que isto pode ser profundamente psicoterapêutico. Freud fez algo assim com o pequeno Hans e seu pai, e Winnicott ampliou o uso desta estratégia, adaptando-a às características do seu atendimento hospitalar e da vida de seus pacientes no ambiente rural.

Então, certamente, estamos diante de um texto muito rico em ensinamentos teóricos e avanços na prática psicoterapêutica.

Henrique Silva - Psicanalista, coordenador do Espaço Winnicott de Psicanálise – Manaus e membro do Grupo Brasileiro Sobre o Pensamento de D. W. Winnicott. (92) 99247.3776, contato@espacowpsicanalise.com.br, Av. Theomário Pinto da Costa, 811 – Ed. Skye Platinum Offices, sl. 714.