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07/09/2018

Waters e Gilmour... juntos em um clássico! (Comfortably Numb)


Waters e Gilmour… juntos em um clássico (Comfortably Numb)

 

Roger Waters e David Gilmour estiveram juntos mais uma vez, em maio de 2011, no O2 Arena, em Londres. Foi uma rápida passagem de Gilmour em um dos shows da turnê de Waters “The Wall”. O espetáculo, em si, já é grandioso, e pude assistí-lo em todas as suas apresentações pelo Brasil em 2012, e com a presença de Gilmour, ainda que em uma só canção (Comfortably Numb), só oficou ainda mais mágico.

Sou um confesso e incorrigível fã do Pink Floyd. De Barret, de Mason, de Wright, de Gilmour por sua guitarra melodiosa, e de Waters por dar sentido e densidade a cada letra de cada música, nao deixando que ali habitasse somente a melodia, mas o significado, o sentido. 

Talvez, de toda a obra do Pink Floyd, eu prefira, ou até ouça mais The Dark Side of the Moon (1973), mas não há como negar que The Wall (1979), além de ser um concerto, uma ópera, é uma espécie de ajuste de contas de Waters com vários aspectos de sua história. Ali existe uma presença considerável de seus dramas psíquicos, o que torna o álbum algo dramático por excelência, combinado a uma melodia que parece que só o Pink Floyd conseguia alcançar.

É arrebatador. O álbum é uma grande encenação acerca de uma subjetividade que, um dia, teve sua espontaneidade e criatividade congelada, esvaziada, aprisionada no “emparedamento” a que o personagem se impõe.

Não à toa Comfortably Numb atingiu o patamar que possui como música. Reúne melodia e sentido, sem dizer que é um dos melhores solos de guitarra já realizados. E foi com esta música que os dois se juntaram mais uma vez, para sorte dos que ali estavam presentes e que puderam testemunhar mais um daqueles raros momentos na vida, em uma situação tão intensa que parece te tirar o chão, mas não para cair e sim flutuar.

Comfortably Numb é o ápice do álbum. É o momento em que o “emparedamento” está no seu auge, quando tudo parece perdido e o horror parece tomar conta do personagem. É o momento do entorpecimento. É o momento de não se ter mais para onde ir, ou se sucumbe, ou se luta. É o momento de recuperar aquela criança repleta de sonhos que sempre nos habitou.

Uma grande pena não estar lá… mas para quem sabe utilizar bem a sua fantasia, me senti como se estivesse lá, ao vivo, recebendo aquelas pancadas de som no corpo.

Quem é fã da música, ou mais especificamente do Pink Floyd, sabe o que "Comfortably Numb" representa. Não é necessário ficar justificando elogios. A canção, além de ter uma melodia que causa aquela sensação de alheamento de que tanto Nietzsche falava quando se referia à música, é um ponto central no álbum The Wall

Quem não lembra da cena em que o personagem Pink volta para o quarto, onde fica sozinho, inerte, mergulhando ainda mais fundo. Tentam arrombar a porta, querem entrar. Acham que pode estar louco, morrendo. Eles conseguem entrar. Ele está desfalecendo. Sentem que podem perdê-lo. É neste momento que surge "Comfortably Numb". Neste momento, Pink já sabe que o pai tão desejado não mais voltará. Pink está entorpecido, confortavelmente entorpecido. Não quer vir à tona, mas querem trazê-lo de volta. Ele se distancia, quase já não é sentido. O torpor lhe tomou conta.

Era necessário esse mergulho para aliviar a dor que sentia. A criança que era havia crescido, o sonho havia acabado, o pai não mais voltaria, ele estava agora confortavelmente entorpecido. Está desistindo... desistindo de tudo. Enquanto as lembranças mais duras povoam sua mente ele não responde mais a nenhum apelo para que retorne. Está afastando-se, lentamente... num forte movimento regressivo!

Talvez um dia façam algo semelhante em impacto visual, melodia e sentido... enfim, com certeza talvez um dia façam algo semelhante... É... um dia... quem sabe... um dia!

Clique aqui para assistir ao vídeo! 

Henrique Silva