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08/09/2018

Conferência de A. Adler - As Bases Orgâncias da Neurose (07.11.1906)


Conferência de Alfred Adler: As Bases Orgânicas da Neurose (07.11.1906)

Checcia, Marcelo, Org.; Torres, Ronaldo, Org.; Hoffmann, Waldo, Org. Os Primeiros Psicanalistas: Atas da Sociedade Psicanalítica de Viena 1906-1908. Tradução Marcella Marino Medeiros Silva. - São Paulo: V. de Moura Mendonça - Livros, 2017 (c) 2015, volume 1, Reunião de 7 de novembro de 1906. Conferência de Adler: As bases orgânicas da neurose, p. 91-105.

Esta conferência não foi transcrita em sua íntegra devido à publicação do livro de Adler, marcada para breve. Adler havia realizado pesquisas sobre a fisiologia e a patologia das zonas erógenas e destaca, nesta reunião, que a inferioridade de um órgão pode estar sendo "encoberta", levando-o a pensar se, por trás de uma neurose não haveria uma patologia orgânica.Nos diz que haveriam explicações diversas para a inferioridade de um órgão: a hereditariedade; os defeitos infantis que interferem no desenvolvimento do órgão; e a anomalia de reflexos ligada à sensibilidade das zonas erógenas. Mas como, a partir do órgão, se desenvolvem as regiões cerebrais correspondentes e a psique? Oferecendo uma resposta, Adler nos diz que o desenvolvimento de um órgão resulta da assimilação de estímulos externos e que, a inferioridade de um órgão é compensada por uma maior atividade cerebral já que a atenção da psique é direcionada para o órgão mais vulnerável. E quanto a isso nos diz que, especialmente na infância, há uma forte ligação entre os "defeitos" e uma atividade intensificada do sistema nervoso central. Ou seja, um conflito cujo resultado leva a uma maior adaptação do órgão às exigências da civilização. Em seguida, nos diz que as atividades infantis visam o prazer e isto conecta a criança ao mundo, e que só mais tarde é que ela irá, gradativamente, abrir mão do prazer em nome da adaptação. Mas, como o órgão inferior continua buscando prazer a superestrutura psíquica tentará lhe corresponder com um aumento da atividade cerebral. Desse modo, há um paralelismo psicofísico que caracteriza o desenvolvimento da criança. Uma "superestrutura psicomotora". E é a partir daí que a "compensação" ocorre. E, caso não possa ocorrer, como em razão de um cérebro inferior, o processo se interrompe e o recalque fracassa. Adler tambem nos diz que toda inferioridade de um órgão, de alguma forma, é acompanhada de uma inferioridade do órgão sexual, levando à precocidade sexual. Como ilustração, nos cita exemplos de famosos como Beethoven e Mozart, além de diversos outros músicos em que observou a relação entre todas estas questões: defeito do órgão, compensação, precocidade sexual e neurose. Ao finalizar, nos diz que, desse modo, a escolha profissional seria determinada pelo órgão inferior e sua tentativa de compensar-se. Menciona, por exemplo, que muitos médicos teriam padecido de enfermidades durante a infância.

DISCUSSÃO - Hitschmann diz que sempre defendeu a explicação "orgânica" da neurose pois tanto a psique quanto o corpo devem ser levados em conta mas, ao contrário de Adler, diz que nem toda inferioridade orgânica leva à neurose, embora a inferioridade de um órgão possa levar sempre a um crescimento "espiritual". Freud elogia o trabalho de Adler e destaca duas ideias: o conceito de compensação pela intensificação da atividade cerebral; e a ideia de que o recalque é fruto de uma superestrutura psíquica. O prório Freud já havia pensado no recalque como sendo realizado pelo "eu". Freud ilustra seu pensamento dizendo das pessoas que apresentam defeitos orgânicos severos como causa de seu egísmo e ambição (tentativas de compensar os defeitos). Também considera relevante a vinculação entre a infância e a busca do prazer, e propõe uma fórmula: que a neurose se deve à desproporção entre a disposição constitutiva e as exigências culturais feitas ao indivíduo. concluindo sua fala, Freud faz uma objeção ao termo "inferioridade" e propõe substituí-lo por "variabilidade específica dos órgãos". Federn, por sua vez, não nega a relação da neurose com certa disposição orgânica, mas seria necessária explicar como se dá essa relação, de fato. Reitler, por sua vez, discorda de Adler, pois ele não forneceria provas da "compensação", além disso, dá muita importância à hereditariedade e não percebe que é a psique que é dominante na produção de um sintoma. Stekel também enfatia a necessidade de dados empíricos e enfatiza o componente psíquico do sintoma. Hollerung chama a atenção para a necessidade de se evitar uma incongruência e diz que o que é transmitido por hereditariedade geralmente entra em conflito com as condições sociais, mas que, em situações normais, isto pode ser balanceado. Rank, diz não ser capaz de discutir a parte médica, mas concorda com a visão "sensualista" da atividade artística, embora com o escritor as coisas sejam diferentes, com as questões orgânicas servindo de defesa contra o exibicionismo. Ou seja, em razão de sua predisposição, escritores são facilmente sujeitos a afecções reais nos olhos e pele. Heller elogia bastante o trabalho de Adler e o vê como uma continuação do trabalho de Freud. 

Henrique Silva - Psicanalista, coordenador do Espaço Winnicott de Psicanálise – Manaus e membro do Grupo Brasileiro Sobre o Pensamento de D. W. Winnicott. (92) 99247.3776, contato@espacowpsicanalise.com.br, Av. Theomário Pinto da Costa, 811 – Ed. Skye Platinum Offices, sl. 714.