Blog

11/09/2018

1911 - Palavras Obscenas (Ferenczi)


Palavras Obscenas (Ferenczi, 1911)

Ferenczi, Sandor, 1873-1933. Palavras Obscenas: Contribuição Para a Psicologia do Período de Latência. Obras Completas, Psicanálise I. Tradução Álvaro Cabral. – 2ª Ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011, cap. VIII, p. 125-138 © 1991. 

Qual o significado da palavra obscena no setting analítico? Qual sua importância para a vida mental? É relevante para a explicação de certos fenômenos psíquicos? Me parece que estas questões mobilizam Ferenczi neste texto de 1911.

Trata-se de um tema que permanece tabu em diversos espaços sociais, como a família, a escola, o trabalho, evidenciando a significativa presença de um recalque (repressão) e, mesmo na relação analista-paciente, o predomínio de elementos como o pudor, a vergonha, a excessiva moral. Tudo isto mostrando que o tema é oportuno, mesmo depois deste texto escrito há mais de 100 anos.

Vejamos como Ferenczi desenvolveu suas ideias.

Ele começa o texto provocando o próprio profissional ao questionar se devemos pronunciar diante do paciente termos populares com o intuito de induzi-lo a também pronunciá-los, sem disfarces, ou se devemos nos manter no uso de termos científicos ou, no máximo, alusões. E, nesse quesito, nos lembra que Freud, para não ferir o pudor do paciente, recomendava o uso dos termos técnicos médicos.

Mas, como pensa Ferenczi acerca desta questão?

Nos diz que no início da análise não há porque se provocar a resistência do paciente, recomendando, então, o uso de “alusões mínimas” para os assuntos “delicados”. Claro que, neste momento, ele está pensando em não nos anteciparmos deliberadamente ao ritmo do paciente, correndo o risco de invadí-lo, por exemplo. Então, de fato, não há razão para se provocar o paciente.

Mas, ele sabe que há casos em que essa postura não basta pois existem situações em que a resistência está emperrando a continuidado do trabalho e, portanto, precisa ser "quebrada", podendo surgir como uma necessidade a verbalização do que é “obsceno”. Por exemplo:

O tratamento marca passo, o paciente está inibido, suas ideias tornam-se raras, manifestam-se os indícios de uma resistência crescente; essa resistência só cede quando o médico descobre sua causa: palavras e locuções interditas surgidas no espírito do paciente, que não ousa verbaliza-las sem a “autorização” explícita do analista (p. 125).

Estamos diante, então, de uma situação em que fica muito claro que algo está sendo recalcado e não dito. Como ilustração, Ferenczi nos traz o caso de uma mulher de 23 anos que padecia de histeria. Ela se esforçava, conscientemente, para ser sempre sincera e dizia nada saber sobre as “coisas sexuais” e que, quando precisava saber, recorria a leituras científicas. Certo dia teria mencionado que sempre que estava na privada fechava os olhos. Ferenczi, com uma escuta muito arguta, lhe lembra das inscrições obscenas nas portas de banheiros e logo percbe certo constrangimento na paciente, evidenciando recalcamentos de “palavras-tabus”. Situações que, evidentemente, impedem o aprofundamento da análise se não forem removidas partes da resistência. Nesse momento, aprofundando sua análise, nos diz algo que ajuda a entender o "constrangimento" surgido:

Com frequência, o enunciado de uma palavra obscena no decorrer de uma sessão produz no paciente o mesmo desconcerto que outrora sentiu diante de uma conversa por ele surpreendida entre seus pais, na qual se insinuara um termo grosseiro, quase sempre de ordem sexual (p. 126).

Ou seja, tais episódios desconcertantes surgem como reproduções de cenas muito primitivas reclacadas. E, no neurótico, por exemplo, podem manter-se produzindo constrangimentos por toda a vida, já que estão fixadas no inconsciente, aparecendo vez por outras como reedições de impressões sexuais infantis cujo recalque não foi tão bem sucedido, embora o “respeito” aos pais e superiores tenha paralisado sua fala.

O próprio Ferenczi se diz vítima desta inibição que acabou por transformar em motivação para o seu estudo concluindo que,

existe uma estreita associação entre os termos sexuais e excrementícios vulgares (obscenos) – os únicos que a criança conhece – e o complexo nuclear, profundamente recalcado, do neurótico e do indivíduo são. (Na esteira de Freud, designo por complexo nuclear o complexo de Édipo) (p. 127).

Ora, as concepções infantis sobre a sexualidade começam pela expressão de termos populares, que são os únicos conhecidos pela criança. Mais tarde, com a chegada da censura moral, há o recalcamento. É este processo que nos ajuda a entender a resistência a certas palavras.

Avançando, e seguindo Freud, Ferenczi nos diz que a palavra obscena obriga o ouvinte a imaginar o objeto. Ou seja, poderíamos supor, portanto, que essas palavras são dotadas do poder de provocar no ouvinte o retorno regressivo e alucinatório de imagens mnêmicas (p. 128). Freud nos falara, como ilustração, do “gracejo indecente”. E, quanto a isto é fácil perceber o quanto ele carrega algo de um "ataque", de uma realização do ato. Não é incomum que ao se formular um gracejo indecente se experimente as palavras como um "ato", da mesma forma como para determinadas pessoas que são alvo do gracejo indecente ele provoque uma reação desproporcional como numa defesa a um ataque. Para Freud, o autor de um gracejo indecente, então, efetua um ataque sexual contra o objeto, desnudando-o. Assim, enunciar uma indecência é algo mais do que simplesmente falar. Há um “ataque”. Toda fala tem sua origem numa ação que não aconteceu (p. 130).

Nesse sentido, é claro, as causas do fenômeno estariam no próprio ouvinte, mais precisamente em suas representações verbais auditivas ou gráficas que estão no fundo de sua memória, e que são mobilizadas com o "ataque" da palavra obscena. Neste momento, é importante lembrar que bem antes de o aparelho psíquico se transformar em um órgão do pensamento, ele foi sede de reações alucinatório-motoras, num estágio mais primitivo.

Freud nos lembra que, para resistir ao sofrimento da frustração, buscamos reviver a representação de uma antiga satisfação. Dessa forma, podemos investir regressivamente em sensações de satisfação já experimentadas antes e, por vezes, fixadas por via alucinatória. E daí colocamos a representação primitova no mesmo plano da realidade. É o que chamava de “identidade perceptiva”, ou seja, uma sensação que confunde a satisfação real com a sua representação movida pelo desejo. Isso parece nos dizer que só a amarga experiência da vida é que nos possibilita a certeza de estarmos diante de objetos reais, e não de ilusões de nossa imaginação.

Mas, o fato é que, gradativamente, as imagens mnêmicas são atenuadas, no desenvolvimento, pelos signos verbais. Ou seja, passamos a exprimir desejos através de signos verbais, o que requer algum tempo e desenvolvimento até que a palavra substitua a representação mais antiga. E, ainda assim, as palavras, conservam por largo tempo sua tendência para a regressão. Essa tendência atenua-se, sem dúvida, progressivamente ou por etapas, até atingir a capacidade de representação e de pensamento “abstratos”, praticamente livres de elementos alucinatórios (p. 129).

Mantém-se, então, em todos nós, uma coexistência entre um modo de pensar através de signos verbais e uma tendência a se reviver regressivamente as representações. Freud dizia que as crianças, por exemplo, tratam as palavras como objetos e, como reforço, podemos recorrer ao seu estudo sobre a origem do prazer através do chiste onde identificava que as piadas, especialmente as tendenciosas, serviriam para liberar certos pensamentos inibidos.

Dessa forma, o psiquismo atual e predominantemente verbal pode recair no modo de funcionamento primário, e é isto que nos ajuda a entender certas resistências às palavras obscenas. Freud já nos mostrara que as representações oníricas podem ser explicadas assim, já que durante o sono nos reencontramos com o trabalho primitivo do psiquismo, ou seja, regredimos. Não é o sonho uma alucinação, e não um pensamento verbalizado?

Ora, sabemos que o desenvolvimento pode ser perturbado e interrompido fazendo persistir, de forma ainda mais intensa as representações de um nível inferior, facilitando ainda mais o caráter regressivo das palavras obscenas ouvidas. E, tanto quanto a audição, a enunciação de palavras obscenas possibilita esta regressão. Mas, qual a causa dessa anomalia que atinge certo grupo de palavras referidas aos órgãos sexuais e excretórios?

Qual a hipótese de Ferenczi?

Em primeiro lugar, vemos confirmar-se por toda parte a suposição quase evidente de que a repugnância em repetir certas palavras obscenas é imputável a vivos sentimentos de desprazer, associados a essas palavras precisamente no decorrer do desenvolvimento infantil, em consequência da inversão do sinal dos afetos (p. 131).

E nos dá dois exemplos: Primeiro, um jovem, com rigidez moral excessiva e intolerância às palavras obscenas, lembrou-se, durante a análise de um sonho, que aos 6 anos e meio sua mãe o surpreendera anotando as palavras obscenas que conhecia. Sentiu-se humilhado e foi punido severamente o que acarretou forte desinteresse pelo campo erótico por muitos anos. Segundo, um jovem homossexual que não conseguia falar a palavra “flatulência” tinha, na infância, forte atração pelas sensações olfativas e um coprofilia (excitação sexual no contato com fezes) e seu pai por vezes até facilitava suas inclinações oferecendo seu corpo para ele brincar. Mas, a associação entre a sujeira e os pais acabou levando a um severo recalcamento daquele prazer pela sujeira e cheiros, e a um desprazer em abordar tais assuntos.

Nos dois casos haveria um forte vínculo entre o obsceno e o complexo parental, e Ferenczi nos lembra que admoestações assim não são poupadas a quase nenhuma criança até que elas venham a reduzir suas pulsões perversas polimorfas por volta dos 5 anos. É um tempo em que a criança, antes da latência, tem a necessidade de pronunciar, escrever e ouvir palavras obscenas. Como ele nos diz:

Essa necessidade de pronunciar, desenhar, escrever, ouvir e ler obscenidades pode ser compreendida como um estágio preliminar à inibição dos desejos infantis de exibicionismo e voyeurismo. É a repressão dessas fantasias e ações sexuais que se manifestam na forma atenuada de linguagem o que assinala o ingresso no período de latência propriamente dito, esse período em que “as forças psíquicas que se opõem à sexualidade infantil – aversão, pudor e moral – são elaboradas” [como diria Freud] e quando o interesse da criança volta-se para as realizações culturais (desejo de saber) (p. 132).

Ou seja, estamos ainda em um momento em que a linguagem se caracteriza por forte tendência à regressão e ao uso do caráter alucinatório e motor, e aí, como nos mostra a análise dos neuróticos, o material psíquico reprimido torna-se um “corpo estranho”, que não se desenvolve.

A seguir, alguns exemplos fornecidos por Ferenczi.

  • O complexo de pênis pequeno é recorrente nos neuróticos, mas não é raro nos saudáveis. Todos aqueles que viriam a sentir mais tarde essa inquietação estiveram vivamente preocupados na sua infância com a fantasia do coito com a mãe, ou com a pessoa correspondente mais velha do que eles; é claro que a ideia da insuficiência de seus pênis para alcançar esse objetivo angustiava-os (p. 133). O período de latência veio e interrompeu tais pensamentos, mas a angústia reaparece mais tarde mostrando que a ideia de um pênis pequeno sobrevive ao seu próprio desenvolvimento. Como a atenção se desviara da região genital, o indivíduo não notou a mudança ocorrida nesse meio-tempo (p. 133);
  • Da mesma forma, o complexo de vagina pequena (medo de dilaceração durante a relação sexual) pode ser explicado pela ideia infantil acerca do tamanho do pênis do pai mais tarde, podem achar os pênis de seus maridos pequenos demais e mantêm-se frígidas;
  • Um paciente que só tinha apetite sexual diante de seios enormes apresentou forte interesse, na infância, pelo aleitamento de bebês e se imaginava compartilhando com eles. Mais tarde, após o apagamento no período da latência, vê seus desejos centrados no complexo de seios grandes, ou seja, a representação dos seios não se desenvolvera nele nesse meio-tempo mas a impressão causada por suas dimensões na criança pequena de outrora se haviam gravado nele de forma indelével... a representação do peito feminino que se fixara conservou as dimensões de outrora (p. 134).

Segundo Ferenczi, tais exemplos

apoiam a hipótese de que a fase de latência provoca, de fato, uma inibição isolada do desenvolvimento de certos complexos recalcados, o que torna bastante admissível a intervenção de um processo idêntico no desenvolvimento das representações verbais que passam para o estado de latência p. 134).

Esta é uma dedução por analogia mas pesquisas experimentais mostram que as reações primeiras são “visuais” e “motoras”, e que vão se perdendo ao longo do deesenvolvimento, como no período de latência, momento de recalcamento de muitas fantasias, e quando o consciente ainda "auxilia" evitando, por exemplo, o “visual” de certos objetos. É um momento em que a “calma” na execução de uma ação, tão presente no neurótico, surge de forma geral, e até mesmo na forma de uma antipatia por indivíduos que “se excedem” em seus impulsos. Ferenczi até nos fala de uma certa “fobia de movimento”, uma formação reativa que responde a uma tendência motora de agressão, mas que está reprimida. Para Ferenczi, isto mostra uma “exageração” do recalcamento das fantasias e da inibição motora.

Neste ponto, Ferenczi faz uma distinção no modo como as representações verbais ocorrem em perversos e neuróticos.

O perverso se apodera das fontes de prazer de suas experiências vividas tornando-se cínico em suas conversas. Existe uma perversão em pronunciar em voz alta palavras obscenas. Há um exibicionismo aqui, um voyeurismo mais leve que se contenta com uma ação reduzida à palavra que suscita reações de pudor. Estamos falando da coprofemia, uma expressão involuntária e compulsiva de termos obscenos.

Já o neurótico desvia sua atenção dos termos obscenos, ou responde a eles com repugnância ou irritação. Esquecê-los totalmente, num alto grau de recalcamento, é algo que parece que só algumas mulheres consegue fazê-lo. De qualquer forma, há no neurótico, e no sujeito normal, uma necessidade de fazer ressurgirem tais palavras soterradas e daí as palavras que antes denominava os objetos mais apreciados do prazer infantil retornam na forma de pragas e maldições (p. 136). São como reações à excitação, a um afeto impetuoso. Então, o termo, que antes estava associado ao prazer, é transformado, mas ainda pronunciado, embora como maldição.

Por vezes, há as trágicas situações em que as palavras obscenas irrompem de súbito na “pureza” do neurótico, aos quais são “estranhas”, “absurdas”. Não é incomum que isto ocorra após a morte do pai por exemplo, especialmente quando este pai era idolatrado. É um momento de “libertação” do inconsciente, de desprezo pelo “tirano”.

Finalizando, Ferenczi tenta uma associação com a etnografia e se arrisca dizer que os termos obscenos estariam mais presentes nas pessoas de baixa ou nenhuma cultura, nas quais o efeito da cultura se fez mais frágil e conservou-se, por isso, um caráter motor e regressivo mais forte.

De qualquer forma, Ferenczi defende a tese de que tais representações verbais obscenas são dotadas de forte carga afetiva e merecem reconhecimento por sua significação na vida mental.

Henrique Silva - Psicanalista, coordenador do Espaço Winnicott de Psicanálise – Manaus e membro do Grupo Brasileiro Sobre o Pensamento de D. W. Winnicott. (92) 99247.3776, contato@espacowpsicanalise.com.br, Av. Theomário Pinto da Costa, 811 – Ed. Skye Platinum Offices, sl. 714.