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05/10/2018

"Educação - Uma Questão de Saúde Pública" (Davy Bogomoletz)


Bogomoletz, Davy. Educação: Uma Questão de Saúde Pública: Contribuições de Winnicott para a Educação [livro eletrônico] / © Davy Bogomoletz. – 1. Ed. – Rio de Janeiro: Editora Eranthus, 2018. pdf. ISBN 978-85-53070-05-3 (livro eletrônico).

Difícil parar a leitura!

É o que, de imediato, chama a atenção no livro eletrônico Educação: Uma Questão de Saúde Pública: Contribuições de Winnicott para a Educação que, com uma escrita leve, está repleto de importantes conceitos da psicologia e da psicanálise, e que muito bem poderia começar com uma pergunta aparentemente simples: O que o professor pode fazer para que seus alunos sintam que ele os segura? Certamente, uma das questões centrais levantadas por Davy Bogomoletz, autor do livro.

É, então, ao desvendamento do significado de “segurar” que muito do trabalho se dedica. Um “segurar” que, da mesma forma como sua concepção de escola, vai transformando-se de um ato mecânico e técnico em um gesto de apoio, acolhimento, ajuda, um estar junto para se fazer junto, um ato de amor, de dedicação, de disponibilidade.

Assim, estamos diante de um trabalho que trata da Educação, de uma concepção de Educação como questão de Saúde Pública, onde o apelo é para que seja vista, por especialistas e pais, para além de um local de formação cognitiva, pois o que está em jogo é o desenvolvimento emocional do ser humano. Tema, aliás, que é uma marca de Davy Bogomoletz, nome certo quando o assunto é Winnicott. Vale lembrar que já nos traduziu duas de suas obras fundamentais: Natureza Humana (Imago, 1990) e Da Pediatria a Psicanálise (Imago, 2000).

Há, neste trabalho, um claro potencial para um despertar imaginativo e criativo. A declaração inicial do autor a Rubem Alves, por exemplo, é um rico exercício em prol do quanto nossas lembranças afetivas com nossos mestres podem ser contagiantes para nosso futuro, não só profissional, mas como seres humanos. Há um chamado a pensar-se a “formação” como algo que deve ocorrer no contexto de um autêntico encontro. Temos aí, então, uma rica associação entre o encontro do analista com seu paciente, dos pais com os filhos, e do professor com seu aluno. É assim que a escola pode ser vista como um ambiente que, ao mesmo tempo, é novo para a criança, continua algo que vem da família, fornecendo o amparo necessário à continuidade do desenvolvimento emocional da criança.

Mas, por que uma questão de “saúde pública”? Certamente, pelo alcance da educação na sociedade. Hoje, por exemplo, a população de uma escola, e mesmo de uma sala de aula, apresenta níveis de desenvolvimento emocional muito distintos. “Diferenças” que implicam em posturas criativas e cognitivas muito distintas, por vezes dramáticas. Mas, isso significa que a escola deve “tratar” seus alunos? Não! Mas seu olhar e seus gestos podem mudar, especialmente se não excluir e buscar uma suposta “normalidade” a partir do “cognitivo”, que sabemos que é só uma parte no conjunto do desenvolvimento de um indivíduo. Surge uma dura questão: A escola consegue “enxergar” o seu aluno e ajudá-lo a tornar-se mais amadurecido emocionalmente? Questão atualíssima!

Não à toa D. W. Winnicott se torna uma companhia indispensável a Davy Bogomoletz, com suas elaborações acerca do holding, do amadurecimento, do self verdadeiro, do falso self, da onipotência, do ambiente, da imaturidade, do objeto transicional, das necessidades humanas, etc. Winnicott foi um dos que melhor evidenciou a capacidade constitutiva do amor, da dedicação, da segurança na relação entre os seres humanos, chamando-nos a atenção para o necessário atendimento às necessidades do bebê para que, mais tarde, ele viesse desenvolver sua capacidade de adaptação aos relacionamentos sociais.

Então, o livro é um grande apelo à que se transforme a escola em um ambiente facilitador do processo de amadurecimento emocional de nossas crianças e adolescentes. E, além de Winnicott, nos deparamos com ricas contribuições de J. Bowlby e R. Spitz acerca destes momentos iniciais do desenvolvimento humano.

O autor ainda reúne anexos muito ricos. Uma entrevista onde aprofunda as relações tão necessárias entre a psicologia clínica, a psicoterapia, a escola e as famílias, sempre na tentativa de desenvolver-se um outro olhar sobre o aluno e sobre a família. Nos fala da contribuição especificamente psicanalítica para a educação através das noções de Ser e Fazer, do Brincar. Concepções tão arraigadas ao processo de desenvolvimento infantil a que Winnicott, por exemplo, tanto dedicou-se, alargando e aprofundando esta passagem da onipotência à realidade, do princípio do prazer ao princípio da realidade, mostrando-a para nós em toda a sua complexidade. Nos traz também um caso clínico, sobre o filme Oleanna, de David Mamet, que define como uma aula de Psicanálise, a partir das difíceis relações de um professor e sua aluna. Nos fala, em outro anexo, da figura materna e o tornar-se um ser humano como questões que precisam estar no centro do palco. Enfim, nos relata a sua rica visita à Escola da Ponte, considerada por Rubem Alves a escola de seus sonhos.

O livro é um convite a se brincar com muitas teses do senso comum na tentativa de atualizá-las, a se recuperar lembranças soterradas pelo tecnicismo para sermos criativos em busca de uma nova escola, de um novo professor.

Há neste trabalho uma porta de entrada para uma visão otimista e criativa do futuro, lançando-nos em um grande desafio: Desejar, como bem poderia dizer Rubem Alves, uma escola onde seja muito bom ser criança.

Henrique Silva, Psicanalista - 10 de setembro de 2018.