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13/10/2018

"Persona"... a impossibilidade de continuar a ser e o falso self


Persona (Suécia, 1966, Dir. Ingmar Bergman, P&B, 85') é um daqueles grandes filmes da história do cinema. E, sendo um filme de Bergman, não poderia deixar de trazer questões significativas acerca da existência humana e seus dramas psíquicos.

É um filme atravessado pela impossibilidade de se lidar com a culpa, o que fica bem claro em uma de suas primeiras cenas onde uma mão é atravessada por um prego, como em uma crucifixação que bem pode estar simbolizando uma punição pelo pecado.

O filme está centrado no relacionamento entre uma paciente e sua enfermeira, seja no hospital, seja na casa de verão onde a recuperação continua. Uma relação tão forte e dramática que nos faz pensar naquelas personagens shakespearianas que, em dupla, fazem o papel de um só. Alma e Elisabet se misturam a todo instante e, de fato, fica uma grande dúvida, sobre a quem cabem as dores mostradas no filme. Talvez a ambas... talvez a todos nós.

Elisabet Vogler é uma atriz que, ao final de certa apresentação, é tomada por um silêncio e por certa imobilidade física. Nada sugere qualquer problema físico ou psíquico segundo sua médica. Então, uma enfermeira, Alma, lhe é dedicada e com ela passará seus próximos tempos. Uma enfermeira cuidadosa, que ama a arte e os artistas e que lhe dedica sempre um interesse especial.

Aos poucos, em companhia da Alma, Elisabet vai ganhando alguma confiança para encontrar pequenos prazeres, como o da leitura, o do caminhar, o de atentar às histórias contadas por Alma e o de sorrir. Mas, o silêncio de Elisabet gradativamente leva Alma a se deparar com questões muito pessoais e que imaginava soterradas, fazendo vir à tona dor e culpa, e proporcionando momentos belos e profundos de intensa intimidade e dramaticidade no filme. 

Talvez Alma estivesse lhe fornecendo um ambiente minimamente confiável a partir do qual alguma espontaneidade pudesse ressurgir. Mas, do que estamos diante? O que significa este silêncio  e imobilidade de Elisabet? Duas falas no filme são importantes para alguma compreensão, a da médica ao se despedir de Elisabet ainda no hospital, e a de Alma já nos momentos finais.

O que diz a médica para Elisabet? 

Eu entendo muito bem. O inútil sonho de ser. Não parecer, mas ser. Estar alerta em todos os momentos. A luta: o que você é com os outros e o que você verdadeiramente é. Um sentimento de vertigem e a constante fome de finalmente ser exposta. Ser vista por dentro, cortada, até mesmo eliminada. Cada tom de voz, uma mentira. Cada gesto, falso. Cada sorriso, uma careta.

É neste contexto que o "silêncio" precisa ser entendido como um abandono de uma determinada posição que revela inautenticidade. Elisabet é uma atriz, mas talvez tenha sido tomada pela própria representação. Não podendo ser ela mesma só lhe resta assegurar-se em "papéis" que lhe garantem algum lugar. O indivíduo e o personagem, então, se confundem e vai ficando claro que ela já não pode mais sair do papel que está representando na vida. Sua única possibilidade de existência é atravéz de uma personagem. 

Estamos falando, portanto, de um falso self que se ergueu visando a proteção de um self verdadeiro revelando a impossibilidade de continuar a ser. Seu amadurecimento estava impedido. E, para continuar, mesmo que numa existência falsa, tornou-se uma personagem para a vida, e não só nos palcos.

O que vemos em seu silêncio, portanto, pode muito bem ser um aspecto de ruína deste falso self. E o silêncio e a imobilidade são apontados pela médica como uma possibilidade que Elisabet deu a si mesma de, ao menos, não mais ter que mentir para si e para os demais. Uma espécie de refúgio, de esconderijo, ainda distante do si mesmo verdadeiro mas já recusando aspectos do falso self.

Para a médica, entretanto, este esconderijo não é seguro afinal o próprio silêncio poderia se transformar em outro "papel" a ser representado. Ou seja, seria preciso esquecer este "papel", assim como aos demais já representados e lutar-se por um encontro com o si mesmo verdadeiro.

Em certo momento de muita ternura, Alma diz a Elisabet: Você tem cheiro de sono e lágrimas. Uma bela definição para este momento de dor vivido quando da ruína daquelas bases em que, por vezes, sustentamos nossa existência.

Onde estava Elisabet? Onde estava o seu self verdadeiro?

O que colapsou em sua existência e que a levou a buscar reagir através da construção de um falso self?

Não temos a resposta para isso pois o filme já nos coloca diante de sua impossibilidade, nos fazendo apenas especular sobre a etiologia de seu falso self. E aí entra em cena o discurso final de Alma nos eprmitindo entender um pouco do desenvolvimento de toda esta tragicidade.

Elisabet havia recusado seu bebê. Uma gravidez e um bebê que a colocaram, certamente, diante de seu real pavor, diante daquilo que colapsou em sua vida tempos atrás e que agora parecia trazer a iminência de ser revivido.

Como disse, sobre este colapso nada sabemos, mas sabemos que, geralmente trata-se de uma falha ambiental que confisca à criança sua possibilidade de continuar a ser, de amadurecer, restando-lhe, quando muito, a construção de um falso self que proteja o pouco de autêntico que sobrevive nela diante de um ambiente que lhe mostra o colapso e o pavor do aniquilamento.

Deste modo, tornava-se impossível a Elisabet amar seu próprio filho. Sua frieza e indiferença a levaram a "recusá-lo". Não conseguiu ser "mãe". Ainda tentou, desde cedo, representar o papel de "grávida feliz" e isso lhe servia para esconder seu medo, suas dúvidas, suas angústias. Servia para dissimular seu ódio inconsciente pelo filho, afinal chegava a desejar que nascesse morto. Não à toa seu parto foi sofrido, longo, difícil. Chegou a olhar com nojo para o bebê recém-nascido e, quando saiu da cama, foi direto para o teatro!

Era preciso representar... mais do que nunca! Para escapar ao colapso.

Não mais cessaria de representar, não mais cessaria de tentar afastar-se de sua angústia de ser lembrada pelo próprio filho do amor que ele tinha por ela. Sim, ele lutava por ela, tentava enxergá-la, tentava tocar em seu rosto... mas só haviam sombras, algo pouco definido, quase nenhuma vitalidade. Elisabet parecia "morta". E isso lhe trazia muita culpa.

Quanto desespero para uma criança procurar o rosto da mãe e não encontrá-lo!

Estavam abertas, entretanto, novas possibilidades. Uma ou outra frase já estava sendo dita... uma esperança de encontrar algo autêntico e verdadeiro de si mesma.

 

Henrique Silva, 13/10/2018

 

OBS. Para mais informações sobre o filme existem muitos links e análises. Clique aqui para ler uma dessas análises