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19/10/2018

1911 - O papel da homossexualidade na patogênese da paranoia (Ferenczi)


O papel da homossexualidade na patogênese da paranoia (Ferenczi, 1911)

Ferenczi, Sandor, 1873-1933. O papel da homossexualidade na patogênese da paranoia. Obras Completas, Psicanálise I. Tradução Álvaro Cabral. – 2ª Ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011, cap. XIII, p. 179-197 © 1991. 

Neste artigo, Ferenczi nos lembra que no verão de 1908, em conversas com Freud, algumas conclusões se tornaram evidentes para ambos acerca da paranoia:

1) O mecanismo de projeção dos afetos é uma característica geral da paranoia;

2) Tal mecanismo situa-se entre o mecanismo de deslocamento de afetos, típico da neurose (transferência, conversão, substituição - Para mais detalhes ver o artigo As neuroses à luz das teorias de Freud) e o mecanismo de retirada de afetos do mundo externo e retorno para o ego, típico da demência precoce (autoerotismo, delírio de grandeza);

3) Em qualquer paranoia haveria uma retirada de parte dos interesses para o ego, mas outra parte não se separaria do objeto, ou viria para o ego mas retornaria ao objeto pelo fato de ter se tornado insuportável para o ego do indivíduo. Mas, por que se tornou insuportável? Essa parte do interesse sofreu uma inversão no seu tom emocional e tornou-se sua negatividade, seu contrário, e precisou retornar ao objeto original para evitar sofrimento maior. Um sentimento de amor, por exemplo, torna-se ódio ou perseguição;

É diante de tais considerações que Ferenczi passa a nos relatar quatro experiências com a análise de paranoicos onde constata inequivocamente que o indivíduo aciona o mecanismo de projeção exclusivamente contra uma escolha de objeto homossexual (p. 180). Ou seja, o uso da defesa projetiva viria como tentativa de o ego afastar de si desejos homossexuais inconscientes. Com isso, Ferenczi reforçar em muito o papel da homossexualidade já constatado por Freud e sua tese central é a de que existem tendências homossexuais sob os delírios paranoides.

Vamos aos casos trazidos por Ferenczi:

Primeiro Caso / O marido da governanta e um “delírio paranoico de ciúme alcóolico” – Aqui, o caso é do esposo da governanta de sua própria casa. O casal morava em um cômodo da casa e, embora ele trabalhasse fora, não perdia a oportunidade de limpar e embelezar a casa com assiduidade e cuidado, sempre querendo agradar ao patrão e sendo muito sensível a críticas. Mas, a partir de certo dia a esposa começa a relatar os abusos dele (álcool, violência). Ferenczi interferiu e ele, mesmo decepcionado com a repreensão, cessou a bebida. Não durou muito a trégua e o alcoolismo tornou-se crônico também piorando as acusações de infidelidade e agressões físicas. Suspeitava de todos, pacientes e até de Ferenczi. Mais uma vez confrontado ele disse que a mulher sugava sua força viril com muitas relações sexuais e que parecia entregar-se a todos. Na frente de Ferenczi sempre se comportava docilmente. E, na verdade, as relações sexuais eram muito poucas e sempre acompanhadas de acusações de traição. Sua atenção foi se concentrando mais em Ferenczi a ponto de espreitar no banheiro e sentir prazer em contar à esposa os detalhes em termos obscenos, perguntando se aquilo lhe agradava. Parecia impossível mantê-lo na casa, especialmente porque chegou a falar em apunhalar Ferenczi, que tomou a decisão de abreviar a ida dele para um hospital psiquiátrico. Ficava claro tratar-se de um delírio paranoico de ciúme alcoólico, onde a transferência homossexual do empregado para o patrão manifestada através do ciúme, assim como para outros homens, era uma projeção de sua própria atração erótica pelos homens. Então, sua repugnância pelo sexo com a esposa não pode ser vista como impotência, mas como aspecto de sua homossexualidade inconsciente. E qual o papel do álcool? O álcool, a que é lícito chamar o veneno da censura intelectual e moral, despojou de sua sublimação, em grande parte (mas não totalmente), sua homossexualidade sublimada em cordialidade, obsequiosidade e submissão (p. 183). Ou seja, sua consciência permeada pela “alta moralidade” era incompatível com seu homossexualismo inconsciente. Esta era a sua verdadeira estrutura sexual psíquica (escolha objetal do mesmo sexo), negada pelo consciente. Mais tarde, soube-se que seu primeiro casamento fora da mesma forma e só experimentou melhora quando estava solteiro. Portanto, não era o álcool a causa profunda da doença; entregara-se à bebida em virtude da oposição insolúvel entre seus desejos heterossexuais conscientes e seus desejos homossexuais inconscientes; depois, o álcool, ao destruir a sublimação, trouxe para a superfície o erotismo homossexual, do qual a consciência só consegue desembaraçar-se pela projeção, ou seja, o delírio de ciúmes paranoico (p. 184). Mas, ele ainda tentava sublimar suas tendências homossexuais sendo um servidor dedicado e dócil. Só quando as circunstâncias começaram a exigir um trabalho maior de sublimação (como quando ia ao quarto ou banheiro, por exemplo) ele começou a mais seriamente projetar sobre a esposa (ciúme, violência), parecendo apaixonado por ela quando, na verdade, seu interesse era pelo sexo masculino. Restava-lhe vangloriar-se potente para dissimular os verdadeiros fatos e alcançar alguma tranquilização.

Segundo caso / A jovem senhora e “delírio paranoico de ciúmes” – Neste caso, temos uma jovem senhora, casada e mãe, que cai em um delírio de ciúmes a ponto de só admitir empregados domésticos homens. O marido, sempre visto como um modelo, passou a ser alvo de forte vigilância e insultos. Mas as suspeitas eram somente com meninas de 12 a 13 anos ou com senhoras idosas. Chegou a ir para uma casa de saúde e, pensando em alguma transferência, Ferenczi chegou a sugerir que não estava convencido da total inocência do marido. Assim, ela comunicou seus delírios e foi trazendo informações como a de que só se casou para satisfazer aos desejos do pai, e que considerava o marido muito vulgar e brutal. Com o tempo se resignou, mas com o nascimento da primeira filha mulher o marido teria ficado descontente e ela passou a sentir remorsos. Veio a dúvida de saber se o casamento tinha sido uma boa ideia, mas logo o pensamento foi dominado por outro, o de ciúmes em relação a uma criada de 13 anos, muito bonita. Mais tarde, quando veio um filho homem experimentou a sensação de “dever cumprido” e de que estaria “livre”. Mas, o ciúme voltou e ela própria começou a ter uma atitude mais provocante com os homens, o que chamava de “brincadeiras inocentes”. Para garantir que o marido não a traísse obrigava-o a várias relações sexuais por noite, além de fechar a porta do quarto quando tinha que levantar pois havia o receio da ex-cozinheira aparecer por lá (segundo ela, ela teria feito uma cópia da chave). Nesse caso, a paciente realiza a insaciabilidade do marido, ao contrário do caso anterior em que ele apenas se vangloriava, mas sem realizar. Na casa de saúde ela provocava aos homens, mas sempre parecia ávida quando falava sobre as mulheres dali. Ferenczi a questiona se um dia não teria gostado apaixonadamente de alguma amiguinha e o que veio à tona foi uma fixação muito intensa na mãe e a prática da masturbação por muito tempo com uma amiguinha sua. Estariam aí os maiores alvos de seu ciúme? Quando o marido a visitava na casa de saúde o delírio se exacerbava a ponto de ameaçar matá-lo. Para Ferenczi, este caso de delírio de ciúmes também só pode ser explicado desde que se presuma tratar-se, uma vez mais, de uma projeção sobre o marido do interesse experimentado por pessoas do mesmo sexo. Uma jovem, criada num meio quase exclusivamente feminino, fixada em sua infância com excessiva intensidade em pessoal doméstico do sexo feminino e que além disso, tinha mantido durante anos relações sexuais com uma companheira de sua idade, foi bruscamente coagida a realizar um casamento de interesse com um “homem grosseiro” (p. 188). A projeção, então, vem quando o desejo inconsciente não consegue mais simplesmente ser detido e obriga-a a mecanismos de defesa mais complexos. Um momento chave para isso é quando se sente “livre” após o nascimento do filho homem. A homossexualidade refreada até então tenta precipitar-se de modo violento e cruamente erótico sobre todos os objetos que não permitem sublimação (menininhas púberes, mulheres velhas, empregadas domésticas); mas todo esse erotismo homossexual, a paciente atribui-o ao marido, exceto quando pode dissimulá-lo sob a máscara de um jogo inocente. Para se consolidar nessa mentira, deve mostrar-se mais provocante com os homens, que passaram a ser indiferentes para ela, e comportar-se até como ninfomaníaca com o marido (p. 188).

Terceiro caso / O Sr. X e a profunda admiração pelo pai – Neste caso, temos o Senhor X que é um funcionário municipal indicado a Ferenczi por seu advogado e que traz uma queixa de perseguição. De início, entregou uma pilha de documentos muito bem catalogada cuja leitura logo revelaria as raízes homossexuais de sua paranoia. Mas, como tudo teria começado? Certo dia notara que um oficial que morava em frente a sua casa se barbeava e pendurava roupas do lado de fora sem camisa. Via isso como um escândalo e, em nome de sua irmã e senhoras, fez inúmeros comunicados a superiores, sempre dando muito destaque à palavras como “proteção das damas”, “camisa”, “ceroulas”, “dorso nu”. Cada vez recorria a esferas de poder mais altas como que buscando um reforço para sua censura egóica que ameaçava falhar cada vez mais. Com o decorrer dos encontros ficou claro que seu pai e seu irmão eram “homens da lei” e, não à toa levava cada recusa como uma afronta à sua honra. Atribui às autoridades militares a opinião de que, segundo parece, o consideram como uma velha senhora que não tem outra preocupação na vida senão satisfazer sua curiosidade sobre tais objetos (p. 190). Se sente muito irritado pelas recusas a seu interesse em proteger as senhoras, a ponto de suas ameaças chegarem ao ponto de falar em fazer justiça com as próprias mãos. Em um dos documentos chega a dizer que querem vê-lo beijar humildemente os pés e as mãos dos senhores (p. 191). Insulta vereadores, chega a candidatar-se à subprefeitura mas é derrotado e culpa a todos por sua derrota. É neste momento, após a intervenção de autoridades superiores que ele é encaminhado a avaliação. E, para Ferenczi, o pano de fundo da homossexualidade é claro: A eclosão da mania de perseguição, latente até então, é provocada pelo espetáculo de um “oficial seminu”, cuja camisa, ceroulas e luvas causaram, aparentemente, uma impressão muito forte sobre o doente(...) É sempre de homens que se queixa, em geral oficiais ou funcionários superiores. Devo explicar isso pela projeção, sobre essas pessoas, de seu próprio interesse homossexual, precedido de um sinal negativo. O seu desejo expulso de seu ego retorna a sua consciência como a percepção de uma tendência persecutória por parte dos objetos de sua predileção inconsciente. Busca e investiga até adquirir a convicção de que o odeiam. Assim, sob a forma de ódio, pode dar livre curso a sua própria homossexualidade, dissimulando-a a seus próprios olhos. Na perseguição, os oficiais e funcionários têm sua preferência: isso se explica pela qualidade de funcionário do seu pai e por seu parentesco militar; daí essa predileção. Suponho que eles eram os objetos primitivos, infantis, de suas fantasias homossexuais (p. 192). Da mesma forma que o paranoico alcoólico se vangloriava de sua potência, e da mesma forma que a ciumenta era ninfomaníaca, ele era gentil e terno excessivamente com as mulheres. Mas, ele só sabia amar aos homens. A questão é que o amor à medida que se aproximou da consciência se transformou em ódio e perseguição (sinal negativo / inversão do afeto). De qualquer forma, sua ternura era uma forma de sublimar a homossexualidade. Neste caso, Ferenczi se utiliza do teste de associação com palavras indutoras (logo depois abandonado por Jung em favor da observação do paciente e de suas reações emocionais e afetivas) e que lhe trouxe algumas conclusões: 1) |Uma pobreza nos resultados pois o paranoico se desembaraça tão bem dos afetos que parece não estar envolvido expressando com desenvoltura seu discurso abundante e egocêntrico, mesmo que ele se aproxime dos “complexos” – a projeção o protege e ele não precisa de “buracos na memória”, como os histéricos. Suas palavras são palavras do ego; 2) Surge a fantasia do homem parir, sobrevalorizando-o; 3) Há uma tentativa de justificar seu distanciamento sexual pela via da higienização; 4) Há uma sobrevalorização da superioridade física do pai através, por exemplo de sua imitação e encanto com o “tamanho” de sua letra; 5) O pai é visto como belo e a mulher é explosiva e destrutiva; 6) Há uma fixação precoce contra a sujeira e a desordem, sinais precursores de uma fixação homossexual.

Quarto caso / Um professor com forte coloração paranoica – O que temos neste caso não é uma paranoia pura, mas uma demência precoce com forte coloração paranoica. Trata-se de um jovem professor que comunica à sua esposa (de aspecto envelhecido) que vinha sendo torturado por ideias suicidas e entrava em ausências e estados fóbicos e mesmo de terror intenso. O motivo central? Teria praticado sexo oral em sua esposa e estava condenado a apodrecer já que tinha descoberto pelo diretor de sua escola (por um buraco no teto do seu quarto). Estava atormentado por remorsos pelo seu ato horroroso. Era muito dócil e devotado ao seu diretor, a quem definia como “um belo homem vigoroso” e quem lhe tinha em grande apreço, sempre dizendo que “sem você eu nada poderia fazer”. Ele havia sempre conseguido sublimar sua homossexualidade mas, decepcionado com o diretor até então venerado, passou a odiar todos os homens e, depois, para justificar seu ódio, viu-se obrigado a interpretar todos os sinais, todos os gestos, todas as falas, como vontade de perseguição (p. 196). Segundo relatos da mãe ele sempre fora um bom garoto, mas pouco envolvido com outras crianças, com o brincar, preferindo ler para a mãe. O pai lhe era mais rude e acabou vendo no diretor um pai mais respeitoso. O problema é que ele não correspondia às suas exigências. Quis então encaminhar seu amor para as mulheres – mas, nesse meio tempo, elas tinham passado a ser-lhe indiferentes. A exageração heterossexual e o cunnilingus serviam para dissimular, aos olhos do próprio paciente, sua ausência de desejo pelas mulheres. Entretanto, seu desejo pelos homens subsistia, mas rechaçado da consciência, retornando depois sob a forma de projeção, precedido de um sinal negativo; o sentimento de fidelidade e de devoção submissa foi substituído pelo sentimento de perseguição (p. 197).

A partir deste conjunto de observações Ferenczi nos comunica sua hipótese:

Na paranoia, trata-se do ressurgimento da homossexualidade até então sublimada, da qual o ego se defende pelo mecanismo dinâmico da projeção (p. 197).

Para Ferenczi esta questão só reforça o enigma que obscurece saber-se quais as condições necessárias para que a bissexualidade infantil evolua para a heterossexualidade, homossexualidade, neurose obsessiva ou paranoia, ou mesmo a manutenção da bissexualidade.

Henrique Silva.