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21/11/2018

"Analista-Ambiente" e "Analista-Objeto" - Posições fundamentais diante de pacientes "retraídos"


Muitas manifestações de raiva no setting analítico podem ser interpretadas no contexto edípico e associadas à rivalidades e dificuldades de conter os impulsos amorosos e agressivos. Mas, existem outras situações, por exemplo, em que a raiva pode ser a manifestação de um sentimento de invasão pelo analista, seja por suas interpretações, seja por sua dificuldade em lidar com o silêncio do paciente.

Em casos assim, podemos estar diante de pacientes que se retraíram, ou seja, se desligaram um pouco da realidade externa para darem, eles mesmos, uma sustentação a seu self verdadeiro fragilizado, e aí se fecham, silenciam, e quando "invadidos", externalizam uma forte raiva. Talvez estejamos, de fato, diante de pacientes que se utilizam do "retraimento" como forma de se protegerem de um ambiente que acreditam ser potencialmente invasivo (como deve ter sido nas suas primeiras experiências infantis). Nessas situações é muito interessante que o analista possa assumir duas posições fundamentais: ser "ambiente" e ser "objeto".

Sendo "ambiente" ele pode, através do manejo do setting, tentar dar a sustentação necessária ao self do paciente liberando-o desta função de se auto proteger e permitindo, enfim, que ele possa "regredir" à situação de dependência para sentir-se cuidado. E, sendo "objeto", o analista pode, acolhendo e sobrevivendo aos ataques e voracidade do paciente, dar a este a chance de se deparar com um ambiente que deve ser reparado. Com isto, as chances do paciente vir a tornar-se independente são muito boas.

São duas tarefas analíticas muito importantes e que evidenciam que a regressão à dependência absoluta exige posturas analíticas por vezes distintas do tratamento clássico das neuroses.

Henrique Silva, 21 de novembro de 2018.