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13/12/2018

Grace e a impossível lembrança!


Estamos em meados do século XIX e uma bela jovem, presa e acusada de assassinato, tem seguidos encontros com um médico que tenta encontrar respostas para o que possa ter acontecido a ela. É em meio a estas conversas, onde a memória de Grace estará sempre em questão, que a trama da obra se desenrolará.

Grace Marks é mais uma daquelas personagens da romancista e poetisa canadense Margaret Atwood, célebre em criar mulheres que se superam em seus sofrimentos. É o caso desta obra que foi adaptada para a TV e deu origem à minissérie "Alias Grace". 

Simon Jordan é o jovem médico que se incumbirá da missão de enveredar pela mente de Grace a partir de suas palavras e suas lembranças numa tentativa de superar sua amnésia e talvez encontrar explicações mais sensatas para seu ato criminoso. Quem sabe até encontrar uma inocência em Grace?

Jordan é um médico pioneiro para sua época. Pioneiro pelo fato de, sem os recursos teóricos e técnicos de uma psicanálise, que só apareceria em fins do século XIX, já ensaiava a busca por significações que não se reduziam à fisiologia, numa tentativa de compreensão dos mecanismos da "loucura". Ele sabe que a ciência de então não dará conta de Grace e, por isso mesmo, busca algo a mais em suas palavras e sua memória, procedimento a que, mais tarde, tanto se dedicará Freud.

Então, investiga a palavra de Grace, explora suas lembranças, até mesmo busca algum recurso na hipnose, mas lhe falta algo para dar sentido à tudo aquilo que vem de Grace. Ele busca algo que está em seu inconsciente, mas este ainda não é uma possibilidade teórica clara. Daí o caráter enigmático de Grace.

O enigma que Grace representa é o próprio enigma da loucura de então, daquilo que não poderia ser explicado a partir de uma base de conhecimento razoável acerca da natureza humana. Isso é só um lampejo da importância de Freud e de sua construção do edifício psicanalítico, trazendo luz para aspectos do funcionamento mental antes relegados ao "enigma".

Dessa forma, o jovem médico irá atrás do significado de um "sussuro" que Grace disse escutar e que lhe comunica em algum momento. Um sussuro... mas, qual o significado de um sussuro? O que ele esconde para ser somente um sussuro? Esse sussuro assume o lugar de ponto central na trama.

Grace é uma bela jovem que fascinará a todos por sua beleza e seu caráter enigmático. Ela surge e deixa a cena do romance como um enigma que devora a todos na sua, então, impossível decifração, assim como "devorou" o jovem médico. E porque é um enigma Grace estará acima de meras denominações como "assassina" ou "vítima".

Na minissérie, logo no início, surge um poema da adorável Emily Dickinson, que talvez seja uma representante legítima das personagens de Atwood justamente por toda a dor e força que sempre carregou na vida e em seus escritos. O poema diz o seguinte:

(...) Mais seguro é encontrar à meia-noite
Um fantasma,
Que enfrentar, internamente,
Aquele hóspede mais pálido.
Mais seguro é galopar cruzando um cemitério
Por pedras tumulares ameaçado.
Que, ausente a lua, encontrar-se a si mesmo
Em desolado espaço.
O “eu”, por trás de nós oculto,
É muito mais assustador,
E um assassino escondido em nosso quarto,
Dentre os horrores é o menor (...)

(Emily Dickinson)

Ou seja, os fantasmas não habitam fora de nós! Estão à nossa espreita através de nossos medos e lembranças que queremos esquecer. Nos habitam e são frutos de nossa, por vezes, frágil constituição psíquica diante de ambientes pouco amadurecidos e abusivos. Estão nos corredores de nossa mente como hóspedes que não foram convidados, mas que não podemos expulsar tão facilmente, só restando, por vezes, integra-los à nossa existência - tarefa, me parece, à que Grace se dedicará em toda a trama. Mas, não é uma tarefa simples e, por vezes, é vista como uma invasão do outro, como Grace denuncia na frase dita a seu médico:

"...Você quer ir aonde eu nunca posso ir. Você quer ver o que eu nunca consigo ver dentro de mim. Você quer abrir meu corpo e espiar por dentro, e se fundir a ele. Em suas mãos você deseja ter o meu coração pulsando..." (Grace, "Alias Grace").

A busca do médico pelas memórias de Grace é incessante, mas há algo de inacessível aí. Sempre há! Afinal, o inconsciente jamais poderá, de todo, ser desvendado. De alguma forma, e guardadas as proporções, cada um de nós tenta proteger algo de si mesmo para si e também diante de um analista. Algo que parece nos oferecer alguma segurança e senso de integração, por mais frágil que seja.

Dessa forma, há algo que Grace não nos oferece, senão somente sob a palavra "sussuro". Mas não vai além disso. Nenhuma palavra a mais que ajude a entender o que isto significa além de uma possível "dupla personalidade". Não podemos esquecer que estamos em um tempo em que quase nada sabia-se acerca da psicose. Então, Grace só nos oferece o sussuro, nada a mais. Mas, com isso, nada nela se fecha ou se completa. É o enigma, que ela tenta desvendar sozinha.

E esse desvendamento passa pela "costura", ou seja, Grace, em virtude das severas falhas ambientais precoces, utilizou-se da dissociação como um mecanismo de defesa bastante primitivo diante de medos e agonias impensáveis. Não à toa, em suas conversas com o médico, está sempre envolvida com a costura de alguma peça de roupa. É bom que se perceba esse aspecto, pois ele nos fala do seu objetivo que citei acima como sendo a possível "integração" de aspectos que se apresentam em sua personalidade e que ela não consegue lidar com eles de forma consciente (a extrema pobreza, os abusos do pai, a impossível sexualidade, a frustração do aspecto maternal em uma governanta, a paixão por uma amiga que morre, etc.). Aspectos que favorecem a sua dissociação e a emergência da "amnésia", da qual o "sussuro" é a única pista.

Costurar, nesse sentido, seria uma tentativa de chegar a algum ponto de paz consigo mesmo, com seus fantasmas internos que, por vezes, a obrigam a dissociar-se para poder ainda sobreviver psiquicamente ainda que com pouca capacidade de ter esperança. Aliás, sobre isto nos diz:

"Guardo minha esperança para coisas pequenas, como um café da manhã amanhã melhor que o de hoje" (Grace).

estamos lidando com um certo grau de esquizoidia que favorece a amnésia já que não podemos lembrar daquilo que nos aproxima do colapso experimentado em nosso ambiente primitivo. Viver a experiência de aproximar-se desse colapso nos causa um medo intenso, algo que nos coloca frente a agonias impensáveis. Então, se para o jovem médico acessar as memórias de Grace é um desafio, para ela, sua proteção é sua missão principal, como que um quebra-cabeças em que só caberá a ela montar.

Mais tarde, com a investigação levada a cabo por Freud, esse esforço de buscar-se a memória inconsciente pela palavra será levado à frente, numa tentativa de deter a amnésia e trazer à tona o que foi reprimido ou vivido como trauma, mas, nesse momento em que vive Grace, não há muito onde se apoiar teoricamente e as técnicas ainda são pioneiras. Daí tudo ficar preso ao "sussuro", que revela algo, mas que se esgota em si mesmo enquanto impossibilidade de se ir mais além.

As tragédias da vida de Grace lhe custaram muito em termos de amadurecimento e capacidades e, quando viu na amiga Mary a possibilidade de lutar e resistir acabou encontrando a possibilidade de canalizar sua raiva. Mas, falhou em fundir essa raiva, afinal os ambientes por onde passou fracassaram em alto grau com ela. E a raiva transformou-se em destrutividade.

Esse aspecto é significativo pois Grace, mesmo diante de sua libertação após 15 anos de cumprimento de pena, diz ressentir-se de não ser mais conhecida como uma mulher a ser temida, mas sim, agora, digana de pena. Não queria ser vista assim, pois talvez sempre tenha se visto como frágil e fracassada.

Por fim, em seu lento processo de integração, surge uma colcha onde, em meio a pontos, remendos e retalhos, surge a possibilidade de um self agora minimamente integrado que possa, talvez, lhe dar a tranquilidade necessária para sentir-se viva e real, e fazer a vida valer a pena.

Grace é apaixonante... talvez porque fale um pouco de cada um de nós e dos diversos corredores de nossa mente.

Henrique Silva