Blog

12/08/2018

Freud, 1886 - Observação de um caso grave de hemianestesia em um homem histérico


Em 15/10/1886, uns seis meses depois de voltar de Paris, Freud leu perante a Sociedade de Medicina de Viena um artigo chamado Sobre a Histeria Masculina. O texto não sobreviveu. De qualquer forma, foi mal recebido e Meynert o desafiou a apresentar perante a Sociedade um caso de histeria masculina. Em 26/11/1896 o caso foi demonstrado por Freud.

Ainda trata-se de um artigo onde os fenômenos da histeria são tratados nos moldes de Charcot. Alguns indícios muito leves já apontam o seu interesse em direção a fatores psicológicos. 

Tratava-se do paciente August P., um gravador de 29 anos. Freud relatou sua história familiar e pessoal repleta de dramas e episódios lastimáveis, com morte precoce dos pais, alcoolismo, tuberculose, afecção sifilítica cerebral em um dos irmãos, ataques convulsivos em outro irmão. Dois outros irmãos com morte muito precoce. Enfim, casos familiares bem dramáticos. 

Além disso, sua vida pessoal também estava marcada por momentos terríveis. Foi atropelado e perdeu parte da capacidade auditiva; sofria frequentes demais e certo embotamento intelectual; não se permitiu relacionamentos sociais nem divertimentos; e sempre caía em um estado de fuga de idéias aonde ele mesmo chegava a questionar sua saúde mental. 

Um fato foi muito forte: numa briga, o irmão chegara a ameaçá-lo com uma faca. O medo sentido foi indescritível, com zumbidos na cabeça muito intensos, com violentas dores do lado esquerdo e pressão intracraniana. Nos sonhos imaginava-se caindo de grandes alturas. Mais recentemente, foi acusado de roubo por uma mulher e ficou tão deprimido que pensou em suicídio. 

A partir deste relato Freud passa a examinar os aspectos físicos do paciente, detalhe por detalhe. Identifica áreas externas e internas (principalmente do lado esquerdo) sujeitas a anestesia, completamente insensíveis a estímulos, da mesma forma aponta para uma diminuição ou mesmo abolição de reflexos sensoriais (visão, paladar, tato, audição, olfato). 

Freud insiste que não se trata de paralisias e sim de anestesias, pois os membros nem caiam flácidos ou ficavam rígidos devido à contraturas forçadas. Eles tinham um movimento, mas que era mais precário à medida que o paciente não os acompanhasse com o olhar, por exemplo. 

Trata-se, segundo Freud, de uma Hemianestesia Histérica com a presença de “zonas histerógenas” (áreas dolorosas em locais insensíveis). Um desvio de uma típica Hemianestesia Histérica é o fato de que o lado direito não está imune à anestesia (ainda que afete somente a pele). Por outro lado, uma característica marcante deste paciente é apresentar certa instabilidade, ou seja, a anestesia cede em determinadas áreas, sob determinados estímulos. 

É nessa instabilidade do distúrbio da sensitividade que baseio minha esperança de ser capaz de restaurar a sensitividade normal do paciente, dentro de pouco tempo (p. 67). 

_________________________

FREUD, Sigmund. Observação de um caso grave de hemianestesia em um homem histérico (1886). In: Obras Psicológicas Completas: Edição Standard Brasileira. Volume I – Publicações Pré-Psicanalíticas e Esboços Inéditos (1886-1899), pág. 57-67. (clique no link para acesso ao texto integral).

Henrique Silva