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12/08/2018

Freud, 1888 - Prefácio à tradução de "De La Suggestion", de Bernheim


Em 1886, na França, Bernheim publicou "De la Suggestion", cuja tradução alemã teve o prefácio escrito por Freud. Ainda era um momento como alguns chamam "pré-psicanalítico", ou seja, Freud ainda não tinha todos os elementos necessários que viriam fundar uma nova terapêutica, a Psicanálise. Havia pouco tempo que despertara o interesse pelo campo psíquico e estava, portanto, iniciando sua transição a partir dos estudos fisiológicos. 

É, nesta fase inicial de transição, que as observações acerca do uso da hipnose para o tratamento de neuroses, principalmente histerias, lhe chamavam muito a atenção como ferramenta para desvendar a origem de diversos sintomas. Mas, o que Freud nos diz acerca do trabalho de Bernheim?

Freud destaca, em primeiro lugar, que já não dá mais para a medicina negligenciar o tema. Chega a pedir "cautela" por parte dos médicos, lembrando que em matéria científica, é sempre a experiência, e nunca a autoridade sem a experiência, que dá o veredito final, seja a favor, seja contra (p. 112). 

Com esse intuito, nos lembra, por exemplo, que o livro já recebera uma calorosa recomendação por parte de August Forel, na Suíça, e que não haveria mais porque se insistir que a hipnose estaria envolvida por um “halo de absurdo”, associada simplesmente à “credulidade” (dos observadores) e à “simulação” (dos hipnotizados), ou pior ainda, que seria perigosa por induzir à uma possível "psicose" *, ou mesmo, criar problemas colaterais quando do uso do clorofórmio como anestesia. 

Para Freud, o hipnotismo teria que deixar de ser um "mistério" para se correlacionar com os fenômenos da vida psicológica que ocorrem tanto em nossa vigília (ao longo do dia) quanto no sono. É importante lembrar que Freud abandonaria qualquer recurso à hipnose um pouco mais na frente, mas, nesse momento, ainda vê nela uma boa chance de discutir outra origem para sintomas neuróticos. E o que ele destaca, na hipnose, é justamente a "sugestão". 

Freud também destaca que o livro de Bernheim discute uma questão que divide os adeptos do hipnotismo em duas correntes. Uma corrente, expressa por Bernheim no livro, sustenta que os fenômenos do hipnotismo têm origem na "sugestão" (uma ideia consciente introduzida pelo hipnotizador e aceita espontaneamente pelo hipnotizado). Sob esse ponto de vista, todas as manifestações hipnóticas seriam efeitos psíquicos, efeitos de sugestões (p. 113). 

Outra corrente defende que o que leva a muitas manifestações do hipnotismo são "modificações fisiológicas" (deslocamentos da excitabilidade no sistema nervoso). Mas, por que esta controvérsia?

Freud nos lembra que a polêmica começou quando Charcot nos descreveu o "grande hipnotismo", um grupo de pacientes histéricos hipnotizados que apresentavam sinais físicos bem marcados, o que invalidaria a tese da forte influência da "sugestão". Ora, Freud não enxerga nenhuma característica "própria" da hipnose de pacientes histéricos (em relação aos normais) e todo médico, ele sustenta, pode produzir, através da hipnose, a sintomatologia que desejar. O que Charcot teria feita seria exatamente isso. mesmo sem ter consciência, sugeriu intenções à seus pacientes, interferindo, portanto, na sintomatologia histérica e criado falsas "leis" a respeito de sintomas físicos em pacientes histéricos, já que podem mudar a cada sugestão de um médico.

É nesse sentido que Freud sustenta a ideia de que, em consequência, o primeiro "transfert" (transferência de sensibilidade de uma parte do corpo para outra) foi sugerido à histérica em algum momento de sua vida, e depois reproduzido por sugestão médica, fazendo sugerir um fenômeno "pretensamente fisiológico". O transfert, porto, é autêntico e fisiologicamente compreensível, mas originado a partir da sugestão. Estou convencido de que esse ponto de vista será o mais bem aceito por parte daqueles que se sentem inclinados – e, atualmente, ainda são a maioria, na Alemanha – a não atentar para o fato de que os fenômenos histéricos são regidos por leis (p. 114).

Mas, Freud continua e chama a atenção para um fato em especial. Se a sugestão tem papel importante na sintomatologia, isso não quer dizer que esta seja falsa e isso explique a histeria. Ou seja, o mecanismo das manifestações histéricas é psíquico e sofre interferência por parte da "sugestão". Não é uma "produção" da sugestão. Esta não poderia produzir algo que não estivesse contido na consciência.

Justamente por isso, Bernheim está correto em criticar a divisão dos fenômenos hipnóticos em "fisiológicos" e "psíquicos". E aí que Freud começa a se questionar por um "elo" que ligue os dois fenômenos, pois a sintomatologia da histeria sugere sim um mecanismo psíquico, mas este não é, necessariamente, o mecanismo da sugestão. E, neste momento, Freud nos presentei com o resultado de algumas pesquisas suas justamente acerca deste "elo".

Mas, o que podemos realmente chamar de “sugestão”? Inicialmente Freud nos diz: Sem dúvida, alguma espécie de influência psíquica está implícita neste termo; e eu gostaria de apresentar o ponto de vista de que o elemento que distingue uma sugestão de outros tipos de influência psíquica, como dar uma ordem ou fornecer uma informação ou orientação, é que, no caso da sugestão, é despertada no cérebro de outra pessoa uma ideia que não é examinada quanto à sua origem, mas que é aceita como originada espontaneamente no cérebro dessa pessoa (p. 118).

Um exemplo está no fenômeno da catalepsia **, ou quando o médico ordena ao hipnotizado que seu braço deve permanecer em tal posição. Claro que em outras ocasiões o mecanismo se instala sem qualquer interferência e, nesse caso, o papel do "fisiologismo" e da auto-sugestão é bem maior ***. São os casos que surgem em "paralisias histéricas espontâneas", como numa espécie de "auto-sugestão". São, ainda, processos psíquicos, mas não diretamente expostos à consciência do indivíduo, pois existem "elos intermediários" originários da própria pessoa, como, no caso, a dor da pancada.

Então, na sugestão, processos psicológicos e fisiológicos vão se combinar, em maior ou menor grau, o que impede uma definição de sugestão exclusivamente como um processo psíquico. É diante disso que Freud vai rejeitar a ideia de se separar tão nitidamente o que ocorre no córtex cerebral de um ato que ocorre na substância subcortical, isso porque a "consciência" não é algo que esteja ligado a alguma parte do cérebro. Ou seja, não é algo que esteja em conexão com alguma região do sistema nervoso. Portanto, parece-me que não pode ser aceita, nessa formulação genérica, a questão de saber se a hipnose exibe fenômenos psíquicos ou fisiológicos; e parece-me que a decisão, no caso de cada fenômeno em particular, deve ser tomada com base numa investigação especial (p. 120-1).

É como se cada região cerebral pudesse operar com uma quantidade variável de atenção (ou consciência). É justamente por isso que Freud considera que o trabalho de Bernheim, se vai além da hipnose, por um lado, por outro deixa de levar em conta uma parte do tema (a questão fisiológica).

APÊNDICE: PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO ALEMÃ (1896) – Neste breve prefácio Freud diz que gostaria apenas de repetir um comentário anterior seu, de achar quefalta em Bernheim a opinião de que a sugestão (ou melhor, sua efetivação) é um fenômeno psíquico “patológico” que requer condições especiais prévias para se realizar. É por isto que, neste livro, a “sugestão” permanece inteiramente inexplicada. É uma dúvida que só pode ser resolvida através da busca de uma “teoria psicológica da sugestão”.

* Quanto a isto, especificamente, Freud chega a se perguntar se o sono natural também não mereceria ser descrito, então, da mesma maneira.

** Uma espécie de suspensão total dos movimentos voluntários e da sensibilidade e rigidez dos músculos.

*** Uma sugestão psíquica seria a simples ordem de "seu braço está paralisado", já uma sugestão indireta (fisiológica) seria, por exemplo, após uma pancada no braço, o médico sugerir que o paciente o levante. Nesse caso, uma sensação de dolorosa exaustão no braço o fará paralisar.

 

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FREUD, Sigmund. Prefácio à tradução de "De La Suggestion", de Bernheim. In: Obras Psicológicas Completas: Edição Standard Brasileira. Volume I – Publicações Pré-Psicanalíticas e Esboços Inéditos (1886-1899), pág. 107-124. (clique no link para acesso ao texto integral).

Henrique Silva