Blog

12/08/2018

Freud, 1889 - Resenha de "Hipnotismo", de August Forel


August Forel, nesta época, era professor de psiquiatria em Zurique, com enorme reputação e foi responsável por apresentar Freud a Bernheim. Ao final da vida foi um severo crítico da psicanálise e, como Freud destacou o livro teria lugar garantido na bibliografia alemã acerca do hipnotismo. Freud encarava o trabalho de Forel como o de um médico sério e árduo defensor da hipnose.

Forel costumava dizer: provem antes de julgar! Realmente, muitos rejeitavam a hipnose com base, simplesmente, numa injustificada antipatia. Mas, quando, entre os críticos, existem figuras como Meynert, a crítica realmente causa dano à hipnose. 

Entretanto, Freud diz que em sua defesa da hipnose está em boa companhia, como a dos professores H. Obersteiner e Krafft-Ebing e que, acima de tudo, é preciso ter respeito pelos fatos. É preciso um julgamento independente, pois, só isso pode levar a uma atitude menos desfavorável e a não mais qualificar a hipnose como “loucura artificial” ou “histeria artificial”.

O que pode ser prejudicial na hipnose? Questiona Freud. Se ela só induz a um estado hipnótico e veicula uma sugestão. Ela não é mais do que o “sono comum”, o adormecer

Mas, Freud levanta dois pontos em que a sugestão seja passível de objeções. Por exemplo, quando se diz que ela tira o “livre-arbítrio” dos pacientes no tratamento. Por outro lado, o próprio Freud faz o papel de defensor quando relembra que os médicos acabam por sufocar o paciente com remédios potentes. Ora, apenas o seu mau uso é que poderia ser perigoso

Em seguida, Freud passa a comentar o livro de Forel e volta a dizer que o fato principal do hipnotismo consiste em levar uma pessoa a um estado da mente semelhante ao do sono. Mas, como esse estado é produzido? Pode ser feito de três modos:

(1) pela influência psíquica que uma pessoa exerce sobre outra (sugestão), (2) pela influência (fisiológica) de determinados métodos (fixação), por imãs, pela mão do hipnotizador, etc. e, (3) pela auto-influência (auto-sugestão). No entanto, apenas o primeiro desses métodos está estabelecido: a produção por ideias – sugestão (p. 134).

E quanto à conduta do hipnotizado? Ela sofreria os efeitos, pela sugestão, em quase todas as funções do sistema nervoso. Ela ficaria como que “dependente” em relação ao hipnotizador e de sua sugestão. Freud continua e diz que para explicar a hipnose foram propostas três teorias.

1) A teoria de Mesmer, que supõe que um fluido passa do hipnotizador para o hipnotizado (magnetismo), mas que tornou-se estranha ao pensamento científico;

2) A teoria somática, que explica a hipnose a partir dos reflexos medulares, ou seja, o sistema nervoso, através de estímulos diversos, cria um novo estado fisiológico. Essa é a concepção apoiada por Charcot; e

3) A teoria da sugestão, criada por Liébeault e seus discípulos (Bernheim, por exemplo), e seguida por Forel, onde todos os fenômenos da hipnose constituem efeitos psíquicos, efeitos de ideias que são provocadas na pessoa (sugestão). Em resumo, hipnotismo equivale ao conceito de sugestão.

A seguir, Freud comenta que Forel ao nos falar dos grandes efeitos possíveis da sugestão sob hipnose na mente humana, e nas funções sensitivas e motoras do corpo, também nos aponta uma série de doenças que podem ser combatidas pela sugestão hipnótica. Mas, seria possível modificar permanentemente uma função nervosa por meio da sugestão? Ou ela só produz êxitos sintomáticos de curto prazo? Segundo Forel o êxito permanente pode ser alcançado em duas condições:

(1) quando a mudança efetuada tem dentro de si mesma a força para se manter entre os elementos da dinâmica do sistema nervoso. Por exemplo. Suponhamos que uma criança, por meio da sugestão, interrompeu a enurese noturna. Então, o hábito normal pode conseguir estabelecer-se tão firmemente como o hábito anterior, indesejável. Ou (2) quando essa força para a mudança é suprida por um medicamento. Suponhamos, por exemplo, que alguém sofra de insônia, fadiga e enxaqueca. Então a sugestão lhe assegura o sono e, assim, melhora seu estado geral, e o retorno da enxaqueca é evitado permanentemente (p. 139).

Mas, ainda questiona-se Freud, o que é realmente a sugestão, base de todo o hipnotismo? Talvez aqui, para Freud, esteja um dos pontos fracos da teoria de Nancy. Ele lembra que, para Bernheim, sugestão era toda influencia psíquica eficaz exercida por uma pessoa sobre outra. Freud diz que Forel tenta ser mais claro, mas permaneceria a fraqueza na definição do conceito.

_________________________

FREUD, Sigmund. Resenha de Hipnotismo, de August Forel. In: Obras Psicológicas Completas: Edição Standard Brasileira. Volume I – Publicações Pré-Psicanalíticas e Esboços Inéditos (1886-1899), pág. 125-140 (clique no link para acesso ao texto integral).

Henrique Silva