Blog

12/08/2018

Freud, 1891 - Hipnose


Trata-se de uma contribuição assinada por Freud para um dicionário médico, e que só foi descoberta em 1963. De início Freud descarta a ideia de que a técnica de hipnotizar seja um método médico fácil.

Em primeiro lugar, não é uma técnica que deva se imposta ao paciente, e muito menos quando há uma resistência por parte do paciente. Não se precisa da crença por parte do paciente, mas de sua atenção e cooperação. Podemos até partir do suposto geral de que todos são hipnotizáveis, mas não há como garantir, antecipadamente, que uma determinada pessoa será hipnotizada.

O que se sabe de verdadeiro é que os portadores de doença mental e os degenerados, na sua maior parte, não são hipnotizáveis, e os neurastênicos somente o são com grande dificuldade. Não é verdade que os pacientes histéricos não se adaptem à hipnose. Pelo contrário, são precisamente estes os pacientes nos quais a hipnose se efetua como reação a medidas puramente fisiológicas e com toda a aparência de um estado físico especial (p. 146).

Contra que doenças podemos usar a hipnose? Pergunta Freud. Em geral, evitaremos aplicar o tratamento hipnótico em sintomas que tenham origem orgânica; empregaremos esse método apenas em casos de doenças nervosas puramente funcionais, em doenças de origem psíquica, bem como em casos de dependência de tóxicos e outras dependências (p. 146).

Após termos conseguido o diagnóstico e certa familiaridade com o paciente, resta definir se usamos a hipnose tête-à-tête, ou se introduzimos uma terceira pessoa para a proteção do paciente quanto ao mau uso da hipnose, bem como para proteger o médico de falsas acusações. Mas, é preciso lembrar que a presença de um terceiro pode incomodar todo o processo.

A seguir, deve-se escolher entre os diferentes métodos de hipnose. Freud, então, descreve os momentos iniciais do processo até o paciente adormecer e se entrar no momento de “sugerir”, ou seja, os comentários persuasivos durante a hipnose. O que tem importância decisiva é apenas se o paciente ficou sonambúlico ou não – isto é, se o estado de consciência produzido na hipnose difere nitidamente do estado habitual de modo significante para que a lembrança daquilo que ocorreu durante a hipnose esteja ausente depois de ele acordar (p. 150).

Mas, não há um método que seja eficiente para colocar qualquer pessoa em estado de sonambulismo, e a principal deficiência do tratamento pela hipnose é que ele não pode ser dosado. O grau alcançável de hipnose não depende do método do médico, mas da reação casual do paciente (p. 151).

Mas, no que consiste a sugestão, verdadeiro valor terapêutico da hipnose? Essas sugestões consistem numa enérgica negação dos males de que o paciente se queixou, ou num asseguramento de que ele pode fazer algo, ou numa ordem para que o execute (…) Por exemplo: “voce não tem mais dores neste lugar; eu aperto aqui e a dor desaparece”. Aplicar pequenas pancadas e pressão na parte afetada do corpo, durante a hipnose, em geral proporciona excelente apoio à sugestão falada. E não devemos deixar de esclarecer o paciente sob hipnose acerca da natureza de sua afecção, mostrar-lhe as razões do término do seu problema, e assim por diante; pois o que temos diante de nós, via de regra, não é um autômato psíquico. Mas um ser dotado do poder de crítica e da capacidade de julgamento, sobre o qual simplesmente estamos em condição de exercer maior impressão agora do que quando ele se encontra em estado de vigília. Quando a hipnose é incompleta, devemos evitar permitir que o paciente fale. Uma expressão motora dessa espécie faz dissipar a sensação de entorpecimento que corrobora sua hipnose, e o faz acordar. Pode-se, sem receio, permitir às pessoas sonambúlicas que falem, andem e ajam, e obtemos uma influencia psíquica de máximo alcance sobre elas perguntando-lhes, quando estão sob hipnose, a respeito dos seus sintomas e da origem deles (p. 151-2).

Freud, por fim, tece algumas considerações sobre a duração e a profundidade da hipnose, e finaliza dizendo que tudo que se tem dito e escrito a respeito dos grandes perigos da hipnose pertence ao reino da fantasia (p. 154).

_________________________

FREUD, Sigmund. Hipnose. In: Obras Psicológicas Completas: Edição Standard Brasileira. Volume I – Publicações Pré-Psicanalíticas e Esboços Inéditos (1886-1899), pág. 141-154 (clique no link para acesso ao texto integral).

Henrique Silva