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20/11/2019

Coringa... e a humanização da loucura!


Finalmente assisti a Coringa (EUA, 2019, Dir. Todd Phillips).

Como um fã declarado de Batman sempre achei que havia muito em comum entre ambos. São filhos diretos da dor, cada um a seu modo, cada um seguindo seu caminho, cada um experimentando falhas ambientais significativas e reagindo de maneira específica, cada um enfrentando a angústia e construindo suas defesas.

Prefiro enxergar dessa maneira, pois assim evito cair nas ciladas do maniqueísmo que reduz o mundo a vilões e mocinhos, não necessariamente nessa ordem. Não gosto de ideologias maniqueístas e de visões dualistas. São pobres, em essência e na sua capacidade de explicar qualquer coisa, embora tragam muita satisfação a necessidades narcísicas em todos nós.

Joaquin Phoenix é um caso a parte. Um baita ator, e vai concorrer ao Oscar, salvo engano. Aliás, acho que Coringa merece o Oscar de Ator Principal. Mais do que isso é forçar a barra. É um ótimo filme, mas a concorrência está pesada. Porém, nunca se sabe qual a orientação seguida por Hollywood para definir suas premiações.

Bem, o que salta aos olhos, de imediato, são as condições psíquicas precárias de Arthur Fleck. Condições expressas em seu senso de irrealidade, de inutilidade e de vazio. São situações que já nos fazem ligar as antenas para momentos muito primitivos da vida, pois dizem respeito a dificuldades de integração, de constituição do Ser. Dizem respeito a capacidades que são conquistadas a partir de condições ambientais favoráveis ainda muito cedo na vida, quando estamos em plena situação de forte dependência ambiental.

Tudo o que Arthur quer é parar de sentir-se mal. Uma típica demanda de sobrevivência, já que sequer aspira a alguma felicidade. Seus momentos mais aparentemente tranquilos são quando divide algum tempo e espaço com a mãe, em casa. Uma mãe que é visivelmente frágil e adoecida, que requer muitos cuidados e atenção da parte dele.

Quanto a isso, ele nos diz de forma bem clara: “Sou o homem da casa desde que me lembro. Eu cuido da minha mãe... ela sempre me diz pra sorrir e fazer uma cara feliz. Ela diz que fui colocado aqui para espalhar alegria e riso”.

Que missão difícil essa de “sempre sorrir e ser feliz” né?

O que fazer com as angústias? O que fazer com a raiva? Para onde são destinadas?

Nesse contexto, vai se tornando evidente a total ausência de uma figura paterna que lhe proporcionasse uma saída para não ter que se responsabilizar tanto pela mãe doente, ou que lhe permitisse sentir-se seguro e protegido até mesmo para experimentar alguma fragilidade.

Embora só tenhamos algumas indicações do que pode ter acontecido na infância de Arthur, o que presenciamos, enquanto adulto, é que sofre seguidas e graves frustrações falhas ambientais, seja através de ofensas e agressões por parte adolescentes delinquentes ou de jovens adultos “trabalhadores”, mas com posturas psicopatas, seja através de empregos duros, e até mesmo através da humilhação pública na tv causada por seu ídolo da comédia.

São falhas que vão adquirindo importância significativa para Arthur e podemos entender isso pelo fato de serem possibilidades de ele reviver falhas ambientais também significativas em sua infância e que podem lhe ter chegado na forma de intrusões severas em seu frágil self.

Ou seja, o conjunto de humilhações vividas na fase adulta serve de estopim para uma explosão de fúria. A explosão de um barril que já vinha acumulando-se desde o início da vida. Que ambiente foi reparador em sua vida? As falhas começaram muito cedo, o que resultou em um self absolutamente frágil que não conheceu formas mais saudáveis de se defender e se confrontar com duras perdas impostas pela realidade externa.

Um misto de frágil constituição de self com uma realidade externa agressiva, pode produzir fúria. E aí, o riso fácil, tão solicitado pela mãe, e que se destinava a alegrar os outros, se transforma em uma poderosa satisfação instintual, de natureza agressiva.

A insistente fala de sua mãe enaltecendo o milionário, e candidato a prefeito da cidade, Thomas Wayne, está carregada de esperança de que ele se torne um homem justo e protetor. Como se, finalmente, encontrasse o pai para seu filho, e que desse a este uma oportunidade de escapar de seu trágico destino a seu lado. É uma mensagem que Arthur ouve repetidamente, a ponto de ir procurar Thomas e se deparar frente a frente com seu “irmão”, Bruce. Está tomado pelo ódio. O ódio de ter sido abandonado? O ódio inconsciente que sempre deve ter sentido pela própria mãe e que nunca pôde expressar, de forma alguma?

Certo dia, após Arthur já ter cometido o assassinato dos três jovens que lhe agrediram no metrô, Thomas Wayne aparece na TV fazendo um discurso claramente político onde condena fortemente os assassinatos e diz que a máscara de palhaço (usada por Arthur) só servia para esconder a covardia, já que o criminoso não tinha coragem de mostrar a sua cara.

Mas, qual era a cara de Arthur? A do riso fácil e dócil (solicitada pela mãe) ou a da fúria de seus atos?

É fato que a expressão da agressividade, nunca permitida pela mãe, agora lhe dará uma oportunidade de sentir-se vivo, e de mostrar aos outros que está ali, apesar de nunca ter sido encontrado. Esta é uma tragédia humana, como já nos apontava Winnicott. Quando não somos encontrados, somos esquecidos, abandonados, e experimentamos rejeição, inferioridade, inadequação, inutilidade, vazio existencial.

Arthur, dessa forma, parece ser uma boa síntese de uma sociedade que acumula humilhações e dores, que transforma-se cada vez mais em ressentida e que está prestes a explodir em uma descontrolada e irracional fúria. Aliás, basta olhar para os lados e os ódios estão soltos.

Como nos diz Arthur: “É muito difícil ser feliz o tempo todo”. E aqui estamos no terreno de uma organização defensiva específica que fazia do riso fácil, inicialmente, uma forma de adaptação à uma mãe triste e vazia e, depois, num tormento que lhe fazia afastar-se cada vez mais da possibilidade de experimentar suas dores. Ele tinha que sorrir. Era o riso fácil que ficava no lugar da angústia profunda e como tentativa de ainda obter a mãe para si.

Como dizer que sofria com sua mãe e seu ambiente inicial? Impossível a ele.

Não à toa, diante dos relatos oficiais que lhe jogavam agora na cara toda a sorte de  abusos infantis severos que vivenciou (subnutrição, espancamentos e abandonos), só lhe sobra a visão de uma mãe com fortes traços psicóticos que não conseguia lidar com as necessidades de Arthur, e um ambiente externo (sociedade) repleto de humilhações e exclusões.

Descobrir sua origem tão traumática, lhe soava como a revelação de uma verdade que ele não podia expressar. Tudo ruía. Todo o esforço em prol do riso fácil e da adequação à mãe caiam por terra. Sua esperança sucumbia, e com ela suas defesas ainda minimamente relacionais. Agora, com o fim da esperança, abria-se um enorme espaço para a psicopatia.

Sim, a psicopatia que resulta de sistemáticas falhas ambientais que arrancam do indivíduo seus últimos fios de esperança no outro, nas trocas relacionais. O assassinato da própria mãe é o início desta transformação.

Daí vem uma súbita vitalidade. Seus sintomas desaparecem. Para de tomar as medicações. Enfim, o palhaço ganha vida. Mas, quem vai se “divertir” agora é ele. Não fará mais ninguém sorrir. E os que lhe fizeram mal agora vão pagar por isso. Esta é a “regra” da psicopatia.

Em um de seus momentos de fúria, após destroçar um antigo agressor, ele olha para o amigo Garry e diz: “não vou te machucar, você pode ir... foi o único que foi legal comigo”.

Mas, sua crença em qualquer coisa vai desaparecendo, a ponto de ele dizer: “Eu não acredito em nada... Não tenho nada a perder... nada mais me machuca... Todo mundo está horrível nos dias de hoje... O suficiente para nos deixar loucos... Ninguém é mais civilizado... Ninguém pensa mais em como é ser o outro cara... (então) O que você ganha quando cruza um solitário doente mental com uma sociedade que o abandona e trata como lixo?”.

Arthur foi um menino agredido e angustiado que encontrou no riso fácil uma forma de manter a mãe, ainda que louca, perto de si. Com o tempo e as seguidas falhas ambientais, suas esperanças sucumbem e, finalmente, todo o ódio represado desde a infância agora ganha expressão na forma de assassinatos cruéis. Não há mais espaço para a confiança e a esperança.

No final das contas, o riso nunca foi fácil para Arthur, ele tinha sempre que se esforçar enormemente para sorrir, mas, era a única forma de não se deparar com a angústia que tanto o machucava. Agora não era mais necessário tanto esforço. Seu riso está a serviço de outro sentimento: O ódio. Arthur, então, sai de cena, e nasce o Coringa!

Henrique Silva, 20 de novembro de 2019.